O cerco do governo federal às bets ganhou uma nova dimensão e colocou o futebol brasileiro no centro de uma conta que pode ultrapassar R$ 1 bilhão por ano. Enquanto o governo prepara medidas para restringir o mercado de apostas online, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a defender publicamente o fim das bets. Ele levou o tema para o centro de sua campanha à Presidência. Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta quarta-feira mostra que 75% dos entrevistados apoiam a proibição das apostas, enquanto 17% são contrários. O levantamento ouviu 5.015 adultos entre 17 e 22 de setembro, com margem de erro de um ponto percentual.

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A dimensão financeira é o ponto que mais preocupa os clubes. A decisão do governo ainda não foi formalizada e o alcance da medida continua em discussão, mas a conta já está colocada sobre a mesa. Em 2025, as casas de apostas destinaram R$ 1,03 bilhão em patrocínios aos clubes que disputaram a Série A. O valor representou 7,2% das receitas totais das equipes, de R$ 14,3 bilhões, mas o peso é muito maior quando se olha apenas para o mercado comercial: as bets responderam por R$ 1,03 bilhão de R$ 3,069 bilhões em patrocínios, aproximadamente um terço de toda essa receita.

Em 2026, o dinheiro das bets continua espalhado pelas principais camisas do futebol brasileiro. Flamengo, Corinthians e Palmeiras estão entre os maiores contratos. O Flamengo recebe R$ 268,5 milhões por temporada da Betano; o Corinthians tem R$ 150 milhões fixos da Esportes da Sorte, podendo alcançar R$ 200 milhões com bônus; e o Palmeiras recebe R$ 100 milhões fixos da Sportingbet, com possibilidade de chegar a R$ 170 milhões. São Paulo, Atlético-MG, Botafogo, Fluminense, Santos, Cruzeiro, Vitória, Remo, Vasco e Chapecoense também possuem acordos com empresas do setor, em contratos que podem incluir valores fixos e gatilhos por desempenho.

Recado direto de Lula

O recado de Lula aos clubes foi direto. Durante um ato de campanha no Rio de Janeiro, na quarta-feira, o presidente afirmou que pretende acabar com as bets e disse que os times terão de encontrar outras formas de financiamento. “Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”, afirmou. Em outro trecho, ao responder às críticas dos clubes, disse que eles deveriam “aprender a viver sem lavagem de dinheiro”. A declaração ampliou o confronto entre o governo e uma parte importante do futebol brasileiro, que se mobilizou contra mudanças abruptas no mercado.

O futebol terá de fazer novas contas. Uma eventual proibição ou restrição que atinja os contratos de patrocínio pode retirar mais de R$ 1 bilhão por temporada do mercado de clubes. Esse número, porém, não pode ser tratado como uma perda definitiva neste momento. O governo ainda discute o formato da medida e, segundo informações divulgadas nesta semana, uma das possibilidades seria concentrar as restrições nos cassinos online, como o chamado “jogo do tigrinho”, mantendo as apostas esportivas. A definição do texto será determinante para saber quanto dinheiro estará em risco.

Em evento de campanha, Lula mostra o slogan do seu partido e do adversário político Flávio Bolsonaro / Reprodução

O governo também avalia uma frente mais ampla contra o setor. Entre as possibilidades discutidas está a responsabilização das empresas por pessoas que tenham se endividado em razão das apostas, inclusive com a hipótese de a União recorrer à Justiça para buscar o ressarcimento. A discussão ganhou força diante do crescimento do mercado: dados do Ministério da Fazenda mostram que 43,8 milhões de brasileiros estavam cadastrados em bets regulamentadas até agosto de 2026, número 75,2% superior ao registrado em 2025.

Bets entrou na campanha

A ofensiva contra as bets passou a fazer parte da disputa eleitoral. A campanha de Lula adotou o tema de forma explícita, inclusive com a mensagem “Flávio é bet, Lula é o caminho”. O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou ser contrário aos cassinos online, mas defendeu a manutenção das apostas esportivas, argumentando que modalidades como futebol, vôlei e tênis podem ser fiscalizadas por tecnologia. A diferença entre as propostas coloca o mercado de apostas dentro da disputa política, mas o impacto sobre o futebol é essencialmente econômico: os clubes precisam saber se poderão contar com contratos que hoje representam uma parcela relevante de suas receitas comerciais.

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O futebol brasileiro, portanto, está diante de uma equação que vai muito além da discussão sobre o espaço das bets nas camisas. O dinheiro das apostas não representa a maior parte da receita total dos clubes, mas se tornou uma das principais fontes de dinheiro em poucos anos. Em 2025, eram R$ 618 milhões; um ano depois, o valor chegou a R$ 1,03 bilhão, crescimento de 66%. Se a mudança anunciada pelo governo atingir os patrocínios esportivos, os clubes terão de encontrar novos parceiros para substituir uma receita bilionária. A questão agora não é apenas se as bets continuarão existindo no Brasil, mas quem ocupará o espaço e pagará a conta deixada por elas no futebol.

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