O pagode comia solto. O refrão do Niva fazia redemoinhos no peito, e, para aliviar a euforia, José Ferreira tinha de cantar bem alto: “Quem Dé-Ra!” A lembrança da situação lastimável do saldo bancário era o último resquício de racionalidade naquele happy hour. Então pedia mais uma, sem jamais desembainhar a comanda. Se o garçom mergulhava outra garrafa no baldinho, era por obséquio de algum colega de firma, mais austero com finanças pessoais ou menos responsável com elas. Mas essa era uma questão que não ocorria a José Ferreira quando chegou em casa, copiosamente bêbado.

MAIS CRÔNICAS DO BARCELOS

A casa onde José Ferreira chegou tropeçando é um estúdio de 24 metros quadrados, cuja posse ele vai ter em 2056. As prestações o envergam. A distante promessa de propriedade não o impede de, na reunião do condomínio, exigir melhores equipamentos na academia, sauna a seco e um paisagismo sem flores de plástico no espaço gourmet. Um vizinho queria fazer a festa de aniversário lá, inclusive, e José Ferreira o estimulou a bancar a nova decoração: “Só se faz 40 uma vez”. As obras não saem por resistência do pessoal que mora nas unidades de 48 metros quadrados, a quem, segundo José Ferreira, caberia pagar a conta. É justo que quem tem mais (nem que seja dívida) pague mais, discursa, dizendo que vai insistir na ideia.

QUERO MAIS, PAGANDO MENOS

Só adia o embate porque a mãe está há quatro meses na UTI de um hospital público. O médico, formado pela universidade federal, não consegue elaborar um prognóstico de alta. José Ferreira pensa consigo que o governo deveria investir mais, dar dignidade a quem sofre, sem jamais encontrar contraponto de quem quer que seja. Mas todo março, quando fala com o contador, está imerso de raiva com a mordida do Leão.

A coisa só não está mais asfixiante porque José Ferreira não tem mulher nem filhos. Paradoxalmente, quando chamado, tira onda de conselheiro de planejamento familiar, ainda que, nesta frente, seu repertório seja um amontoado de lugares-comuns. Noutro happy hour, antes de a mente se nublar com o álcool financiado por terceiros, aconselhou um amigo inseguro com o anúncio de mais um filho: “onde come um, comem dois”, disse aquele que come sozinho.

SE VAMOS RACHAR, QUERO PF

A solidão à mesa, aliás, só é rompida nos restaurantes, onde José Ferreira desenvolveu uma tática muito ágil. Se alguém se dispõe a pagar a conta, seu apetite por couverts, trufas e flores de sal logo aflora. Se cada um vai pagar a sua, mira o PF ou prato do dia do cardápio, pensando inclusive em economizar na gorjeta. José Ferreira é um craque da extração de prazer com dinheiro que não é seu.

Ah, faltou dizer: José Ferreira é corintiano, defende que o clube não se acovarde na gestão como se fosse uma padaria, que pense grande. Está muito feliz com a renovação do Memphis Depay.

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