O esporte costuma vender a imagem da superação. O atleta é aquele que suporta a dor, enfrenta a pressão, volta de uma lesão, disputa até o último minuto e transforma dificuldades em combustível para vencer. Por trás dessa imagem, porém, existe uma questão que durante muito tempo permaneceu escondida: a saúde mental. Ansiedade, depressão, esgotamento e pensamentos suicidas também fazem parte da realidade de atletas, independentemente da modalidade ou do nível de rendimento. O problema é que, no ambiente esportivo, admitir sofrimento ainda pode ser interpretado como sinal de fraqueza.

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A pressão por resultados é um dos fatores que ajudam a explicar esse cenário. A cobrança de torcedores, clubes, patrocinadores, dirigentes, treinadores e do próprio atleta pode transformar uma atividade profissional em uma fonte permanente de tensão. No alto rendimento, uma sequência de resultados ruins pode significar perda de espaço, contrato ou patrocínio. O atleta passa a conviver não apenas com a necessidade de performar, mas com o medo constante de fracassar. Quando essa pressão se soma ao isolamento e à dificuldade de falar sobre o que está acontecendo, o problema pode se tornar ainda maior.

Camisa do Tietê, clube do interior de São Paulo: campanha Ninguém Defende Sozinho neste mês de setembro / Divulgação

Outro ponto de atenção é o burnout, caracterizado pelo esgotamento físico e emocional associado à rotina de alta exigência. Treinamentos intensos, viagens, competições sucessivas, cobrança por desempenho e pouco tempo para recuperação podem levar o atleta a perder motivação e prazer pela própria atividade. Lesões também representam um momento delicado. Um jogador afastado durante meses pode perder espaço, renda, rotina e contato diário com o grupo. Para alguns atletas, a identidade pessoal está tão ligada ao esporte que uma lesão ou o fim da carreira representa uma espécie de perda de identidade. Tudo isso sempre foi desconsiderado no futebol.

 Ninguém Defende Sozinho

O tabu sempre foi outro adversário no esporte. Muitos atletas aprendem desde cedo que precisam ser fortes, competitivos e capazes de suportar qualquer dificuldade. Falar que não está bem pode significar, na percepção do próprio atleta, colocar em risco sua posição no time ou sua imagem profissional. O resultado é o silêncio. E o silêncio dificulta que familiares, companheiros, treinadores e profissionais de saúde percebam sinais de sofrimento antes que a situação se agrave. No esporte, assim como fora dele, pedir ajuda não deveria ser encarado como uma derrota.

É nesse contexto que uma iniciativa do CFC Tietê utiliza o jogador que talvez melhor represente a sensação de estar sozinho dentro de campo: o goleiro. Na campanha “Ninguém Defende Sozinho”, criada para o Setembro Amarelo, os goleiros das categorias Sub-15, Sub-17 e Sub-20 entrarão em campo nos dias 18 e 19 deste mês com camisas amarelas produzidas para a ação. No espaço destinado ao patrocinador, estará a mensagem “Disque 188 — Centro de Valorização da Vida”. A campanha é importante também porque fala com meninos e meninas de base, ainda em formação.

Promoções e arrecadação

A escolha não é apenas estética. O goleiro é o único jogador que veste uma camisa diferente dos companheiros, tem regras específicas e realiza parte de sua preparação de maneira individualizada. A imagem pode sugerir isolamento, mas a função depende do coletivo. “Escolhemos o goleiro porque a posição carrega uma imagem muito forte. Ele é diferente dos demais e, em alguns momentos, pode parecer isolado dentro do campo. Mas, por trás de cada defesa, existe um time inteiro”, afirma Fábio Bolla, diretor de Comunicação e Marketing do CFC Tietê e colunista do The Football. Para ele, a mensagem é que buscar apoio não deve ser interpretado como sinal de fraqueza.

Cidadãos do Futebol

A campanha terá uma segunda etapa. Depois das partidas, as camisas usadas pelos goleiros serão leiloadas no Instagram oficial do clube, e a arrecadação será destinada ao projeto Cidadãos do Futebol. A iniciativa tenta fazer com que a mensagem não termine com o apito final: as peças utilizadas em campo passam a representar uma ação social. É uma maneira de transformar a conscientização em arrecadação e aproximar o futebol de uma discussão que fica fora das quatro linhas.

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Contudo, a saúde mental não pode ser mais tratada apenas no mês de setembro ou quando uma tragédia ganha repercussão no futebol, por exemplo. O esporte precisa discutir de maneira permanente como clubes, federações e equipes podem oferecer suporte psicológico aos atletas e criar ambientes nos quais falar sobre sofrimento não seja visto como sinal de fraqueza. O futebol exige que goleiros defendam bolas difíceis, mas nenhum atleta deveria ser obrigado a defender sozinho seus próprios problemas. Fora do campo, também é preciso haver um time. E, quando alguém estiver em sofrimento emocional ou pensando em suicídio, o CVV pode ser acionado pelo número 188, 24 horas por dia.

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