A Argentina entrou em uma nova era. Lionel Messi anunciou sua aposentadoria da seleção aos 39 anos, encerrando uma trajetória de 21 anos, 207 jogos e 125 gols com a camisa albiceleste. O último capítulo foi a derrota para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026. Agora, além de encontrar um substituto para o maior jogador de sua história, a Associação Argentina de Futebol (AFA) precisa tomar outra decisão: continuar ou não com Lionel Scaloni. Não depende da AFA a permanência do treinador.
O problema é que Scaloni não deixou claro que pretende seguir. Seu contrato termina em dezembro e, depois da derrota na final do Mundial de 2026, o treinador admitiu que precisava de tempo para pensar. A posição contrasta com o desejo da AFA, que antes da Copa tratava a renovação como prioridade. Havia até a expectativa de um acordo para estender o trabalho até 2030, mas a decisão ficou em aberto depois da derrota para a Espanha.

A saída de Messi torna a escolha ainda mais delicada. Se Scaloni permanecer, terá a missão de construir uma Argentina sem o jogador que organizou boa parte da história recente da seleção. Não será apenas substituir o jogador, mas mudar uma estrutura que funcionou com Messi como referência técnica, emocional e estratégica. Ao mesmo tempo, é Scaloni quem conhece melhor os jogadores que participaram desse processo e quem pode conduzir a transição sem precisar começar do zero.
Uma Copa e um segundo lugar
Existe, portanto, um argumento forte para a continuidade. Scaloni não é apenas o treinador da geração de Messi. Ele foi o responsável pela transformação da seleção argentina depois de anos de instabilidade. Sob seu comando, a equipe ganhou a Copa América de 2021, a Finalíssima de 2022, a Copa do Mundo de 2022 e chegou novamente à final do Mundial em 2026. Mesmo sem conquistar o segundo título consecutivo, a Argentina terminou o ciclo entre as duas melhores seleções do mundo.
O outro lado da discussão é igualmente relevante. Scaloni pode entender que seu ciclo se encerrou porque a geração que ele conduziu ao topo começa a desaparecer. Ele já se mostrava indeciso antes da decisão com a Espanha, quando The Football acompanhou a sua entrevista em Nova York. Agora Messi saiu. Outros jogadores importantes também estão próximos do fim da trajetória internacional, enquanto nomes como Emiliano Martínez e Leandro Paredes vivem situações de incerteza. A Argentina precisará renovar parte do elenco e encontrar novas lideranças. Paredes, inclusive, reconheceu que a aposentadoria de Messi e sua própria suspensão de dez jogos tornaram seu futuro com a seleção incerto.

A questão central para a AFA é saber se existe hoje um treinador mais bem preparado do que Scaloni para fazer essa transição. E qual é a vontade do técnico. Trocar o comandante significa iniciar duas reconstruções ao mesmo tempo: uma no campo e outra no banco. Manter o técnico significa preservar uma metodologia que já produziu resultados extraordinários, mas também cobrar dele a capacidade de construir um grupo que não dependa da genialidade de Messi.
Copa América de 2028
O próximo objetivo será a Copa América de 2028 e as primeiras partidas das Eliminatórias da Copa de 2030. Até lá, Scaloni teria tempo para testar novos jogadores, encontrar uma nova referência ofensiva e redefinir a identidade da equipe. Julián Álvarez, Lautaro Martínez, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e outros integrantes da geração mais jovem podem assumir responsabilidades maiores. A Argentina não precisa encontrar um novo Messi — e talvez esse seja o primeiro passo para superar a ausência do craque.
Há ainda uma questão emocional. Scaloni e Messi construíram uma relação que ultrapassou a hierarquia entre técnico e jogador. O treinador participou do período mais vitorioso da história recente da seleção e esteve ao lado do camisa 10 nos momentos em que a Argentina voltou a acreditar que poderia ganhar. A saída de Messi pode representar, para Scaloni, o encerramento natural de uma história. Mas também pode ser o motivo para começar outra.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Por isso, a decisão da AFA deveria ser menos sobre gratidão e mais sobre projeto. Scaloni merece reconhecimento pelo que fez, mas uma renovação até 2030 precisa estar baseada na capacidade de conduzir a Argentina depois de Messi. Se ele acreditar que ainda tem energia e ideias para reconstruir o time, sua permanência parece ser o caminho mais lógico. Se entender que sua história também terminou com o último jogo de Messi, a federação terá de aceitar a mudança.





