A volta de Tite ao trabalho não é apenas mais uma movimentação relevante do mercado de treinadores no futebol brasileiro. É, antes de tudo, um raro e necessário testemunho público sobre limites, fragilidades e saúde mental — um tema que ainda encontra resistência num ambiente historicamente moldado pela lógica da força, da cobrança por resultados e da negação do sofrimento.
Em abril, às vésperas de assumir um contrato que já estava apalavrado com o Corinthians, Tite simplesmente não conseguiu dormir. Na noite anterior à apresentação oficial, o corpo e a mente colapsaram. Uma crise de ansiedade fora do padrão, paralisante, tirou o treinador do eixo e o impediu de seguir adiante. Não houve fuga. Houve medo. E a dolorosa decisão, rara e corajosa, de que era preciso parar.

E, como quase sempre acontece nesses casos, veio acompanhada de desconfiança e julgamentos. O futebol ainda reage mal quando seus protagonistas mostram humanidade. Mas Tite fez o que precisava ser feito: se tratou. Cuidou da mente. Encarou traumas, consequências e fantasmas acumulados ao longo de uma carreira intensa, marcada por pressão extrema — especialmente nos anos em que comandou a seleção brasileira em duas Copas do Mundo e não venceu.
Tite está otimista
Nesta quarta-feira, ao ser apresentado oficialmente como novo técnico do Cruzeiro, o discurso foi de otimismo. Não havia euforia artificial nem necessidade de provar força, mas o técnico travestia serenidade e uma alegria genuína por estar de volta ao trabalho. Tudo isso sem negar a consciência do processo vivido. Para explicar esse período de transição entre uma aposentadoria indesejada e o medo de não conseguir mais ser quem sempre foi, Tite recorreu à parábola da águia, que se recolhe ao penhasco para trocar penas, bico e garras antes de voltar a voar. Tite está de volta.

A metáfora não é casual. Fala de dor, de isolamento e de reconstrução. “Eu tinha essa necessidade de reciclar”, disse Tite. “Hoje, estou com a autoestima bem melhor. Estou bem com a minha família, com as pessoas que eu amo, fazendo aquilo que me dá prazer.” Não é discurso de efeito. É relato de quem entendeu que, sem saúde mental, não há carreira, título ou reputação que se sustente.

Aos 64 anos, Tite não trabalha desde setembro de 2024, quando foi demitido do Flamengo. Fez falta ao futebol brasileiro nesse período. Não apenas pela prancheta, mas pela figura ética, pelo profissional altamente qualificado, pelo treinador que pensa o jogo, lidera processos e respeita pessoas. Mesmo envolto por uma nuvem de desconfiança — inevitável diante do histórico recente —, Tite segue sendo um nome da primeira prateleira do mercado nacional.
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O Cruzeiro aposta não apenas no técnico, mas no homem que voltou diferente. Mais consciente dos próprios limites. Mais atento aos sinais. Mais preparado, talvez, para sustentar a pressão sem se perder nela. É muito bom saber que Tite se tratou e se recuperou clinicamente.




