A chegada de John Arias ao Palmeiras reacende um debate que sempre jogou gasolina na fogueira das paixões do futebol brasileiro: existe fidelidade no esporte profissional ou estamos falando apenas de negócios mal digeridos pela arquibancada? Quando deixou o Fluminense rumo ao Wolverhampton Wanderers, o colombiano declarou que, se retornasse ao Brasil, vestiria novamente a camisa tricolor. A frase, protocolar e emocionalmente correta, virou agora prova de acusação no tribunal das redes sociais. Para parte da torcida, houve traição. Para o mercado, houve oportunidade.

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É preciso separar as coisas. Se o torcedor vive de paixão, o jogador sobrevive daquilo que constrói em sua carreira. O futebol atual é uma indústria global, atravessada por cifras milionárias. Não há espaço para ingenuidade romântica e juras de amor eterno. A carreira de um atleta é curta. Aos 35, 38 anos, a maioria já está planejando a aposentadoria. Quando surge uma proposta que atende melhor aos interesses profissionais e financeiros, a decisão raramente é sentimental — é estratégica.

Arias foi apresentado ao Palmeiras depois de assinar contrato de quatro temporadas com o time de Abel / Palmeiras

Pode-se discutir o peso moral da promessa feita por Arias. Pode-se cobrar coerência. O que não se pode é chamar de antiprofissional alguém que escolhe aquilo que entende ser melhor para sua trajetória. A seu favor, aliás, consta que ele recusou uma investida do Flamengo, rival direto do Fluminense. Se foi cálculo de imagem ou respeito esportivo, pouco importa. Mas ele foi prudente.

Casos de ‘traição’

O roteiro não é novo. O torcedor do Corinthians lembra de Paolo Guerrero, herói do Mundial de 2012, que prometeu não defender outro clube no Brasil e acabou no Flamengo. Cada arquibancada tem seu exemplo particular de “traição”.

Mas poucos casos foram tão emblemáticos quanto o de Cafu nos anos 90. Em 1995, o lateral utilizou o Juventude como ponte para retornar ao futebol paulista e defender o Palmeiras. A manobra foi articulada pela Parmalat, patrocinadora de ambos os clubes. Cafu havia sido vendido pelo São Paulo ao Real Zaragoza em 1994 com cláusula que impedia retorno direto a rivais do Estado. A solução encontrada foi engenhosa: contrato com o Juventude, onde atuou por cerca de um mês — dois a cinco jogos — antes de se transferir para o Palmeiras, driblando a multa de US$ 3,6 milhões.

São Paulo recorrer à Fifa

O São Paulo recorreu à Fifa, alegando que se tratava de uma operação de fachada. O desfecho foi a condenação do Palmeiras ao pagamento de indenização de US$ 1 milhão. A discussão extrapolou o campo esportivo e invadiu o terreno das suspeitas de favorecimento à prática de monopólio e cartelização.

Cafu sendo apresentado no Juventude: ponte para assinar e fazer história com o Palmeiras / Juventude

Para o torcedor são-paulino, Cafu “pulou o muro”. Bicampeão da Libertadores e do Mundial pelo clube em 1992 e 1993, passou a vestir a camisa do vizinho inimigo pouco depois. No Palmeiras, fez parte de um dos grandes elencos da história recente do clube, conquistou o Paulista de 1996 e somou 102 jogos.

A história, porém, relativiza paixões. Cafu construiu carreira sólida na Europa, brilhou na Roma e eternizou-se como capitão do penta com a seleção brasileira em 2002 — já era campeão mundial também em 1994. O tempo foi maior que a polêmica. Talvez seja essa a síntese que o caso Arias nos obriga a encarar: fidelidade é um conceito emocional; mercado é uma estrutura racional. O torcedor tem direito ao ressentimento. O jogador tem direito à gestão da própria carreira.

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Quem ainda enxerga apenas ser mercenário e praticar a traição talvez esteja, na verdade, inconformado com o fato de que o romantismo perdeu espaço para o futebol dos tempos de globalização. Que John Arias possa ser feliz no seu novo local de trabalho. A vida segue e é tempo de Carnaval.

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