Patrício, escuite: que cousa foi aquele Grenal? Os guri com a guaiaca empanzinada de onças, com as melenas tosquiadas em barbeiro dos bueno, chinoca airosa por todo lado… e me tapam de vergonha. Já senti a ardentia das areias desoladas no litoral, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha, molhei as mãos no soberbo Uruguai, tudo num caprichoso ziguezague pelo infinito do Rio Grande e le digo: nunca vi uma peleia tão feia entre esses da capital.

SIGA TE FOOTBALL

Veja vancê… Os gaúcho não esperam grandes farturas de beleza com futebol, gostamos de umas botinada. Um taura vale mais pela coragem do que pelas frescuras que é capaz de fazer c’as bota. Quando sai um carrinho, parece que tem luz de Deus por todos os lados. Eh-pucha! Mas aquilo de sábado, debaixo daquela friagem soprada do Guaíba, não foi triste pela feiúra. Foi triste pela falta de tino.

Amigo! Os guri, tanto os de azul quanto os de vermelho, tropeavam a la louca. Vista de cima, a cancha parecia um formigueiro desmanchado pela pata do cavalo no meio da coxilha. Foi um salseiro bárbaro. Pois é… Quem pode ser bravo, corajoso, colhudo, quando não sabe para onde ir? Deu sono. Como pode, tchê, um Grenal dar sono?

UM FORMIGUEIRO DESMANCHADO PELA PATA DO CAVALO

Olhe bem… Acho que o futebol está negando o estribo para o Rio Grande. Não só o futebol, veja vancê. Não sabemos mais como camperear no mundo. Todo gaúcho sai campo afora com uma saudade aragana de quando, falando grosso sobre predestinações geográficas e cantando hino, amarrava cavalo em qualquer obelisco e, a la fresca!, passava a dar ordens. Essa saudade, Patrício, só nos leva a fazer besteira.

O BOI VELHO DO PASSADO

Vancê compreende? O tempo não tem paradeiro: passa e não volta. Se a gente insiste em acreditar na mentira de quem promete ressuscitar a glória imaginária dos ressentidos, bueno, vamos ficar muito tempo sem encher o bucho e a rede dos paulistas e dos cariocas. Aliás, Patrício, nem medo mais metemos neles. Nossa antipatia não é recíproca, rivalidade pressupõe, do outro lado, uma significância que já não temos.

Sempre me intriga isso… O passado, tchê, é a gente Silva mui política da Estância dos Lagõoes. Nós, a gauchada, somos o boi velho, o Cabriúna. A saudade daquilo que imaginamos ser e não necessariamente fomos vai nos enfiar a faca para tirar o couro. E aí, Patrício, já meio sangrando na respiração, vamos meter a cabeça certinho no lugar da canga e ficar esperando. E dormir em Grenal… E ajoelhar… E cair… E morrer…

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Fabrício Barcelos
Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.

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