Há algo de profundamente injusto — quase maligno — no ambiente que hoje cerca Roger Machado no São Paulo. É como se cada dia vivido ali, num ambiente tóxico, fosse marcado pela contagem regressiva de um fim anunciado. “Que exemplo eu daria para minhas duas filhas se num momento de pressão, que considero injusta, eu desistisse? Eu não vou desistir”.

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O desabafo do treinador não é apenas uma resposta ao momento — é um manifesto íntimo, quase um juramento. Roger fala menos como técnico e mais como homem. Um homem que se recusa a abandonar suas convicções mesmo quando o pré-julgamento do seu trabalho o tenha levado à condenação sumária.

Roger Machado avisou que não vai desistir do São Paulo, apesar do ambiente conturbado no clube / São Paulo FC

A cena do fim do jogo contra o Juventude, nesta terça, é insólita. Cruel. Mesmo num dia de vitória, o técnico saiu vaiado do Morumbis. Não por aquilo que o time fez, mas por tudo aquilo que insistem em colocar em suas costas. Os gols perdidos, os erros individuais, o pênalti desperdiçado por Calleri — episódios que, em qualquer leitura minimamente honesta, escapam ao controle de quem está à beira do campo. Que culpa tem o treinador se o artilheiro perde um gol de dentro da pequena área, como ocorreu contra o Vasco também?

Roger está sendo rejeitado

Há uma linha tênue entre crítica e perseguição — e ela já foi ultrapassada com Roger.
O problema é mais profundo. Roger não está sendo apenas criticado — está sendo rejeitado. Sim, há um componente de pré-julgamento que contamina qualquer avaliação. Uma resistência que independe do resultado. E isso transforma o debate em algo menor, quase indecente.

A demissão de Hernán Crespo, ainda com o time em boa posição no Brasileirão, nunca foi devidamente assimilada. E, como tantas vezes acontece no futebol, o elo mais frágil virou alvo da insatisfação da torcida. Roger passou a pagar por uma decisão que não tomou. Tornou-se símbolo de uma ruptura que não construiu. Absurdo.

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A verdade é que ele chegou demitido. Antes mesmo de seu primeiro treino, já carregava o rótulo de erro. E, quando isso acontece, pouco importa o que vem depois. Nem mesmo os números conseguem furar essa barreira: são seis vitórias, um empate e quatro derrotas em 11 jogos — um aproveitamento, inclusive, superior ao de seu antecessor. Mas os números não salvam quem já foi condenado no imaginário coletivo. Roger sabe disso. Sente isso. E não esconde sua tristeza.

 O que disse Roger

“É claro e evidente que esse ambiente externo acaba por contaminar o jogo. Jogadores ansiosos acabam errando lances simples. Esse cargo não é meu. Eu estou treinador do São Paulo. Gostaria de saber por que esse ambiente. Essa pressão só aumentou desde o dia que cheguei. Sentimento de tristeza. Estou sendo julgado mais pelo contexto do clube do que pelo resultado. Minha tristeza hoje é maior que os resultados.”

Passos valiosos

Há uma lucidez dolorosa nessas palavras. A consciência de quem entende o que está acontecendo, mas ainda assim escolhe permanecer. Não por teimosia, mas por princípio — e por caráter. Porque seria fácil sair. Pedir demissão, apontar o dedo, lavar as mãos. Mas Roger resiste, talvez porque ainda veja um caminho para salvar a sua biografia. Fica porque entende que sua história — dentro e fora do futebol — não pode ser escrita sob a lógica da fuga. “Às vezes na batalha, o comandante veste vermelho para ninguém ver que ele está ferido”.

Torcedor do São Paulo tem muito mais para festejar com Roger Machado do que tinha com Crespo / SPFC

A imagem é poderosa. E diz muito sobre o momento. Roger sangra, mas não expõe a ferida. Protege o grupo, assume culpas que não são suas, sustenta um ambiente que já não o sustenta. Lidera no silêncio, na dignidade, na resistência. Só por isso Roger já mereceria mais respeito. Se não como o treinador dos sonhos da galera, pela dignidade de ser quem ele é dentro e fora do ambiente do futebol. Um sujeito íntegro, honesto, trabalhador. Um profissional que honra seu trabalho como a única fonte de sustento de sua família. Um pai que se orgulha de poder dizer para as filhas que a grandeza da trajetória humana não está no fim, mas no caminho. O importante é a jornada, não o destino.

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