Há noites em que o futebol subverte a lógica e se rende ao imponderável. O escritor Nelson Rodrigues gostava de usar essa figura de linguagem para explicar o tanto que o jogo de bola não tem explicação. A noite desta quinta-feira, na Neo Química Arena, foi uma delas. O Corinthians não jogou o seu melhor futebol, passou boa parte da partida encurralado taticamente pelo Rosario Central, perdeu Raniele por expulsão no início do segundo tempo e teve de resistir com um jogador a menos. Quando tudo parecia encaminhado para uma derrota dolorida ou, na melhor das hipóteses, uma decisão por pênaltis, apareceu Memphis Depay. E, com ele, apareceu também Breno Bidon, filho do Terrão, para desviar de leve uma cobrança de falta do holandês e transformar aflição em delírio da Fiel. Num único toque de bola, Memphis já justificou todo o esforço feito pela renovação de seu contrato.
Foi uma classificação heroica, épica, puro suco de Corinthians. Um time valente, brigado e resiliente, que soube sobreviver quando jogar bem já não era mais possível. Essa é a síntese desse clube. Nem sempre o melhor. Mas diferente. E talvez seja justamente essa a grande força desse time: a capacidade de transformar uma situação adversa em combustível. O Rosario Central foi melhor em vários momentos, controlou espaços, teve mais posse e conseguiu impor ao Corinthians um jogo que o time de Fernando Diniz não queria fazer. Ainda assim, quando a partida parecia escapar pelos dedos, o Corinthians encontrou uma fresta. E fez dela a porta de passagem para as quartas de final — quando enfrentará outra pedreira argentina, o Estudiantes.

Corinthians sem espaços
O plano argentino foi inteligente desde o começo. O Rosario fechou os lados do campo, bloqueou os espaços por onde normalmente aparecem Matheuzinho e Bidu e obrigou o Corinthians a construir pelo meio. Era uma armadilha — até porque, pelo meio, o Corinthians tinha Pedro Raul. E jogar com ele, sem a opção das bolas aéreas, não é fácil. Não se trata de diminuir o centroavante, mas de reconhecer uma limitação que ficou exposta durante o jogo. Pedro Raul é um jogador que pode ser útil quando a bola chega à área em cruzamentos pelo alto. Mas não é o atacante capaz de fazer tabelas rápidas, sair da referência, projetar-se em velocidade ou abrir espaços em velocidade. Se os lados estavam fechados, o Corinthians precisava de outras soluções por dentro. Elas não apareceram.
Depois de uns 15 minutos de pressão, nem tão intensa assim, o Rosario foi tomando conta da dinâmica da partida. Um time experiente, bem postado, trocando passes com paciência e mantendo uma marcação alta que empurrava o Corinthians para uma espécie de sinuca de bico: o time era talhado para jogar pelos lados e cruzar bolas na área, mas os argentinos haviam fechado justamente esses caminhos. Diniz caiu na armadilha e não encontrou a saída no primeiro tempo.
Tanto que o Rosario Central jogou em Itaquera melhor do que havia jogado em seu próprio território. A única oportunidade realmente perigosa do Corinthians foi o chute de Kaio César. Depois dos 24 minutos, porém, ele praticamente desapareceu do jogo, também vítima da dificuldade que o time tinha para fazer a bola chegar aos seus homens de frente.

Roteiro de cinema
O segundo tempo começou com outro ingrediente: tensão. Empurrões, discussões, entradas mais duras, jogadores cercando o árbitro. O jogo foi ficando nervoso, físico, pesado. E o Corinthians pagou um preço altíssimo por isso. Aos 12 minutos, Raniele foi expulso depois de o VAR chamar o árbitro para revisar o lance em que o volante atingiu com a trava da chuteira a coxa de Copetti. Se já era difícil jogar contra aquele Rosario com 11, passou a ser uma missão muito maior com dez. E foi aí que a torcida começou a olhar para o banco.
Memphis Depay ainda estava lá. Aos 23 minutos, durante a pausa para hidratação, Diniz chamou o holandês. Nunca Memphis representou tanto a figura do salvador da pátria corintiana. E a imagem dele, com a tradicional fita na testa — desta vez carregando também a provocação ao Palmeiras, numa referência àquela cena em que pisou na bola diante do arquirrival — parecia condensar tudo o que aquela torcida queria ver naquela noite.
Era mais do que um jogador entrando em campo. Era um símbolo. Enquanto isso, o Corinthians vivia uma dúvida cruel: deveria tentar atacar para matar o jogo ou proteger-se para levar a decisão aos pênaltis, confiando em Hugo? O Rosario, naturalmente, ficou muito mais confortável em campo. Trocava passes, ocupava os espaços e fazia o Corinthians correr atrás da bola. A sensação era de que o empate em 0 a 0 já começava a ser tratado como uma espécie de vitória possível pelos corintianos, diante de todas as circunstâncias.
Memphis vale o investimento
Até que o futebol resolveu brincar com a história. Aos 31 minutos, depois de uma sequência de erros de Matheuzinho e Gabriel Paulista, Copetti recebeu livre e saiu na cara de Hugo. O gol estava à sua disposição. Bastava escolher o canto. Ele tentou fazer por cobertura e mandou a bola por cima. Por alguns segundos, a Neo Química Arena respirou aliviada. Talvez os mais supersticiosos tenham lembrado imediatamente de Diego Souza, com a camisa do Vasco, desperdiçando uma chance inacreditável diante de Cássio naquele ano que terminaria com o Corinthians campeão invicto da Libertadores.

O futebol tem dessas coisas. Às vezes, ele deixa uma porta aberta. Quatro minutos depois, o Corinthians entrou por ela. Aos 35 minutos, falta pela lateral esquerda. Memphis pegou a bola. Aquele era o tipo de momento para o qual jogadores caros são contratados. Para resolver o que parece sem solução. Para encontrar uma saída onde ninguém mais enxerga. O normal seria levantar a bola para a área confiando no cabeceio de Gabriel Paulista e Gustavo Henrique. Mas o holandês fez diferente. Bateu baixo, em direção ao gol, e a bola encontrou o pé salvador de Breno Bidon, no primeiro pau. O menino do Terrão desviou sutilmente com o bico da chuteira direita para as redes. E a Neo Química Arena explodiu.
Fiel torcida vai ao delírio
Naquele instante, não importava mais quem havia jogado melhor. Não importava a posse de bola do Rosario, a estratégia argentina, os dez jogadores corintianos em campo, a dificuldade de construir pelo meio ou a perspectiva dos pênaltis. Estava ali o Corinthians que o corintiano reconhece. Torcida, camisa, sofrimento, um jogador predestinado, um menino formado no Terrão e uma bola que parecia obedecer a uma lógica própria. Tudo misturado numa única explosão de loucura.
Uma vitória com garra. Com raça. Com entrega. Com jogadores se atirando em cada disputa como se aquela bola fosse a última da vida. Até diante de Di María e companhia, o Corinthians não se intimidou. O Rosario foi superior em determinados momentos, teve mais controle do jogo e criou situações que poderiam ter mudado a história. Mas a história acabou sendo corintiana. E a volta de Memphis Depay ganhou um significado ainda maior.
Depois de uma longa novela, contrato renovado, o holandês voltou justamente numa noite em que o Corinthians mais precisava dele. Não fez o gol, mas participou diretamente do lance que decidiu a classificação. É isso que fazem os jogadores diferentes. Às vezes, não precisam resolver tudo. Basta aparecer no instante certo.
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Dizem que Memphis é caro. E é mesmo. Mas jogadores como ele também custam caro porque podem produzir exatamente isso: uma solução quando o jogo parece não ter solução. Foi uma noite mágica. Uma dessas noites que fazem o corintiano renovar a fé no imponderável e reafirmar seu mantra preferido, especialmente dirigido aos que torcem contra: nunca duvidem do Corinthians!
O corintiano vive disso. De momentos difíceis, de situações adversas, de jornadas desafiadoras e de resultados que às vezes caem do céu, às vezes brotam dos pés de craques como Memphis Depay. No fim, valeu a mística da camisa corintiana. Mais uma noite de delírio para o Bando de Loucos.





