Guadalajara, junho de 1986. Depois de 40 anos, as histórias de Zico e Neymar encontram ponto de inflexão, na dor e na esperança. Só a Copa do Mundo para permitir esse roteiro… Passaram-se quarenta anos, mas ainda consigo me lembrar do “som” do silêncio pesado que tomou conta do Estádio Jalisco quando Zico caminhou em direção à marca do pênalti diante da França. Eu estava lá.

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Como repórter do jornal A Gazeta Esportiva, eu cobria aquela Copa do Mundo do México e acompanhava de perto uma das histórias mais dolorosas e humanas que um craque já viveu em um Mundial. Desde a chegada da seleção brasileira, era impossível não perceber o sofrimento de Zico. O maior jogador do país naquela geração travava uma batalha diária contra o próprio corpo.

Zico escolhe o canto esquerdo do goleiro francês Joel Bats, que faz a defesa e impede o dia de herói do craque brasileiro
Zico se supera e vai à Copa do México, mas falha na cobrança de pênalti no momento decisivo contra a França / Reprodução

Zico vive um drama

Meses antes, em agosto de 1985, uma entrada violenta do zagueiro Márcio Nunes, num jogo entre Flamengo e Bangu, quase encerrou sua carreira. O joelho esquerdo sofreu uma devastação raramente vista para a época. Houve rompimento dos ligamentos cruzado anterior e colateral, lesões na fíbula e no tornozelo. Vieram três cirurgias, meses de recuperação e uma corrida desesperada contra o relógio.

A medicina esportiva dos anos 1980 estava longe dos recursos que existem hoje. O responsável pelo tratamento era o médico Neylor Lasmar, um dos maiores especialistas do país e pai de Rodrigo Lasmar, atual chefe do departamento médico da seleção brasileira. Mais uma curiosa coincidência que une duas histórias separadas por quatro décadas. Zico venceu a primeira batalha ao conseguir embarcar para o México. A segunda, porém, mostrou-se impossível. Não havia condição física para suportar noventa minutos de uma Copa do Mundo.

Fé no Galinho

Telê Santana precisou administrá-lo com extremo cuidado. O camisa 10 entrou apenas no segundo tempo contra a Irlanda do Norte, a Polônia e a França. Cada aparição era recebida como um acontecimento. Cada toque na bola alimentava a esperança de um país inteiro que sonhava ver seu maior ídolo assumir novamente o protagonismo. E então veio Guadalajara.

O jogo contra a França já era um clássico instantâneo quando Zico saiu do banco. Pouco depois de entrar, o camisa dez deu um belo lançamento em profundidade, Branco invadiu a área e sofreu o pênalti, cometido pelo goleiro Joël Bats. Lembro-me perfeitamente do estádio inteiro gritando seu nome. Zi-co! Zi-co! Zi-co!

Era como se dezenas de milhares de pessoas quisessem empurrar aquela bola para dentro do gol. Não era apenas uma cobrança. Era a oportunidade de um herói recuperar tudo aquilo que a lesão lhe havia roubado durante meses. Zico não fugiu da responsabilidade. Jamais fugiria. Mas a bola parou nas mãos de Joël Bats. O silêncio que veio em seguida foi devastador.

Ainda hoje consigo me recordar da expressão do camisa 10 brasileiro. Em poucos segundos, o sonho da redenção transformou-se em mais um capítulo do seu drama particular. Depois vieram os pênaltis decisivos. Zico, corajoso, bateu de novo e agora converteu a sua cobrança, mas o Brasil acabaria eliminado.

Mais do que mera coincidência

Quarenta anos depois, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, aquela lembrança voltou à minha cabeça. Ao olhar para Neymar integrado ao grupo convocado por Carlo Ancelotti, vejo ecos daquele velho dramalhão mexicano. Evidentemente, as lesões são diferentes. Os tempos são outros. A medicina evoluiu. Os métodos de recuperação evoluíram. Mas existe algo familiar na imagem de um craque tentando correr contra o relógio para não perder a Copa que pode representar sua última grande oportunidade.

Neymar faz acompanhamento individualizado na preparação da seleção brasileira e pode voltar a treinar no campo / CBF

Assim como aconteceu com Zico em 1986, Neymar chega ao Mundial cercado por dúvidas físicas. Convocado ainda convivendo com uma lesão de grau 2 na panturrilha, passou mais tempo dentro do departamento médico do que nos gramados durante a preparação. Também ele luta para recuperar a condição ideal. Também ele tenta convencer o corpo a acompanhá-lo em mais uma aventura com a camisa da seleção. Talvez por isso a história de Zico esteja tão viva em minha memória.

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Porque ela ensina que nem sempre talento, dedicação e vontade são suficientes para vencer as limitações impostas pelo destino. Zico fez tudo o que estava ao seu alcance para ser protagonista daquela Copa. Ninguém se esforçou mais do que ele. Mesmo assim, o desfecho não foi o que sonhava. Neymar agora percorre uma estrada parecida. Tomara que, desta vez, a história reserve um final diferente.

Tomara que os fantasmas de Guadalajara fiquem apenas na memória de quem os testemunhou. E que o craque brasileiro consiga escrever, nos Estados Unidos, o capítulo feliz que o futebol negou a Zico no México de 1986.

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