Enquanto a Espanha festeja o título conquistado por uma geração que revive o brilho da equipe inesquecível de 2010, e a Argentina deixa os Estados Unidos fortalecida pelo reconhecimento mundial de um estilo de jogo construído sobre competitividade, identidade e espírito coletivo — além da despedida honrosa de Lionel Messi, agora a caminho da aposentadoria —, o Brasil encerra a Copa do Mundo de 2026 numa nada honrosa 11ª colocação geral. A pior campanha desde o fracasso da seleção de Sebastião Lazaroni na Copa da Itália, em 1990.
Todas as evidências apontam para a necessidade de uma revisão profunda do futebol brasileiro se ainda existir a pretensão de recolocar a seleção no lugar de protagonista mundial. Mas, aqui entre nós, seria uma ilusão acreditar que a ferida exposta nesta Copa servirá, por si só, como ponto de partida para uma revolução. Não existe absolutamente nada no horizonte que indique que a necessidade fará nascer a ocasião da mudança.

Afinal, nos 24 anos que se passaram desde a conquista do pentacampeonato, em 2002, muito pouco foi feito para reorganizar as estruturas do futebol brasileiro. Tudo não passou de promessa. Ou melhor, nos descaminhos conduzidos pela incompetência administrativa, pela ausência de planejamento e pela completa falta de compromisso com um projeto nacional de formação, capacitação e reorganização do esporte.
Mudanças são urgentes na seleção
Mais uma vez, o Brasil deixou uma Copa do Mundo carregando a convicção de que mudanças são urgentes. Mas basta olhar para trás para saber exatamente o que acontecerá daqui para frente. O senso de urgência desaparecerá, como desapareceu depois de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. E, quando percebermos, estaremos novamente às vésperas de outro Mundial alimentando a velha ilusão de que, dessa vez, o hexa virá.
O problema é que não existe uma liderança capaz de conduzir essa transformação. A CBF definitivamente não parece ser a instituição mais apropriada para liderar um projeto dessa dimensão. O governo federal tampouco possui essa atribuição, muito menos a expertise necessária para fazê-lo. Os clubes, sufocados por dívidas, administrações precárias e calendários insanos, sobrevivem na corda bamba, reféns de dirigentes sem planejamento e de contas que quase nunca fecham no fim do mês.

Samir Xaud, atual presidente da CBF, tampouco transmite a sensação de representar uma ruptura. Apesar da embalagem de novidade, sua gestão parece reproduzir os mesmos métodos, os mesmos grupos políticos e as mesmas oligarquias que há décadas controlam o futebol brasileiro sem jamais construir um projeto nacional consistente. Muda-se o personagem. O roteiro permanece exatamente igual.
Não dá para viver do talento individual
Talvez a última vez em que o futebol brasileiro tenha vivido um verdadeiro processo de reconstrução tenha acontecido na virada das décadas de 1950 para 1960, sob a liderança de Paulo Machado de Carvalho, o inesquecível “Marechal da Vitória”. Depois do trauma de 1950, o Brasil reorganizou métodos, profissionalizou sua preparação, reformulou conceitos e construiu as bases que levariam às conquistas de 1958, 1962 e 1970. Foi o último grande projeto de país aplicado ao futebol nacional.
Desde então, vivemos muito mais de talento individual do que de planejamento coletivo. Ganhamos em 1994 e em 2002 impulsionados por gerações extraordinárias, mas jamais voltamos a desenvolver um modelo capaz de garantir competitividade permanente. Nas últimas décadas, a estabilidade brasileira esteve muito mais próxima do fracasso do que do sucesso.

Carlo Ancelotti chegou cercado por uma expectativa que parecia capaz de iluminar esse caminho. Sua contratação simbolizava uma ruptura cultural inédita: pela primeira vez, o Brasil entregava a seleção ao treinador mais vencedor do futebol europeu na esperança de recuperar competitividade internacional.
Ancelotti será mais cobrado
Pouco mais de um ano depois, o encantamento diminuiu sensivelmente. A eliminação diante da Noruega expôs uma equipe sem identidade, sem repertório ofensivo e completamente desconectada da tradição do futebol brasileiro. Qualquer treinador brasileiro provavelmente teria sido demitido ainda no vestiário depois daquela derrota para a Noruega. Ancelotti, porém, permanecerá no cargo porque seu contrato foi renovado antes da Copa.
Agora resta saber se o italiano será capaz de entregar aquilo que ainda não conseguiu: uma equipe competitiva, acelerar a renovação do elenco, recuperar uma identidade de jogo perdida em algum momento das últimas duas décadas e, principalmente, liderar um processo de reconstrução que vai muito além do campo.
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Porque há tanto para reconstruir que não conseguimos sequer definir por onde começar. O drama é tão latente que mal se consegue identificar uma escala de prioridades. Talvez essa seja a maior derrota deixada pela Copa de 2026. O Brasil já não discute apenas quais jogadores convocar ou qual esquema tático utilizar. A dúvida agora é muito mais profunda: qual projeto queremos para o futebol brasileiro?
Enquanto essa resposta não existir, o hexa continuará sendo apenas um desejo. A Espanha acaba de provar que títulos são consequência de uma filosofia construída durante décadas. A Argentina mostrou que identidade, continuidade e convicção também vencem Copas do Mundo. O Brasil, por sua vez, precisa abandonar de uma vez por todas a falsa crença de que “Deus é brasileiro”. O futebol mundial mudou. O talento continua sendo indispensável, mas já não basta. Mais do que rezar pelo hexa, será preciso trabalhar para merecê-lo. Só assim 2030 poderá representar o início de uma nova história, e não apenas mais um capítulo da longa coleção de frustrações acumuladas desde 2006.





