A noite de terça-feira no Maracanã não terminou apenas com a eliminação do Fluminense para o Lanús, mas também com uma surpresa: o pedido de demissão de Renato Gaúcho, anunciado na própria coletiva. O tom do treinador era de indignação. Não tanto pela queda na Sul-Americana, mas pelo que considera um bombardeio de críticas ao seu trabalho — críticas que, segundo ele, partem dos “gênios da internet”.
A decisão de Renato não deixa de ser curiosa. Afinal, o Fluminense não vivia um cenário de desastre: está nas semifinais da Copa do Brasil, figura no oitavo lugar do Brasileirão com chances de Libertadores e, no Mundial de Clubes, foi o brasileiro que mais longe chegou, terminando em quarto lugar, superando rivais de maior orçamento e tradição. Em números frios, sua passagem não foi irrelevante: 42 jogos, 21 vitórias, nove empates e 12 derrotas. Um saldo que, se não empolga, não sugere fracasso.

O que chama atenção, portanto, não é apenas o gesto em si, mas o alvo escolhido por Renato: os tais “gênios da internet”. Quem são eles? O que representam? Por que incomodam tanto um treinador calejado, com quase quatro décadas de estrada na bola? A resposta passa pelo poder corrosivo das redes sociais. Esse tribunal permanente da internet não poupa ninguém — políticos, artistas, atletas, técnicos — e já fez outras vítimas, atacando com voracidade, muitas vezes a partir do anonimato, movido por uma mistura de ódio, frustração e falsa sensação de onisciência.
Especialistas digitais
É possível que o discurso de Renato seja também uma saída conveniente, uma cortina de fumaça para justificar uma decisão que já estava tomada. Mesmo assim, há verdades em sua crítica. A proliferação de “especialistas” digitais, sempre prontos a ver defeito em tudo e apresentar soluções milagrosas para problemas complexos, é um fenômeno que ultrapassa o futebol e afeta toda a vida pública. A internet, ao democratizar a voz, abriu também espaço para o barulho, para a agressividade e para a corrosão da reputação alheia.
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Renato preferiu não dar nomes. Talvez por prudência, talvez para reforçar a ideia de que o inimigo é difuso, onipresente e invisível. Mas sua saída escancara uma questão que não pode ser tratada apenas como capricho ou vaidade: o peso que a opinião digital, muitas vezes desqualificada, ganhou sobre a condução de carreiras e instituições. O Fluminense perdeu um treinador. O futebol brasileiro ganhou mais um exemplo de como os “gênios da internet” podem, sim, influenciar decisões do mundo real. Mais do que isso: ganhou também uma excelente oportunidade para uma reflexão oportuna e necessária.





