O futebol brasileiro conseguiu transformar até uma boa ideia em motivo de disputa por protagonismo. O debate sobre a criação de protocolo de Fair Play Financeiro entre os clubes da elite, que deveria inaugurar uma nova era de responsabilidade e equilíbrio, começou contaminado por interesses particulares e vaidades mal disfarçadas.
A primeira pedra foi lançada pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap. Em carta aberta, o dirigente se apresentou como defensor da austeridade e da justiça esportiva, mas o texto logo se revelou mais um instrumento de provocação do que de construção. Sob o pretexto de discutir regras financeiras e técnicas, Bap mirou nos rivais de sempre: o Palmeiras, por causa do gramado sintético. E Vasco e Corinthians, por estarem em recuperação judicial. E o Botafogo, por extensão, por também adotar o piso artificial.

É legítimo que o dirigente rubro-negro defenda pontos de vista que convirjam para os interesses do seu clube — isso faz parte do jogo. O problema é confundir o debate público com uma arena particular de provocações. Ao atacar o gramado do Palmeiras, Bap parece ter esquecido um detalhe: o Flamengo sequer tem estádio próprio. Há anos o clube se beneficia do Maracanã, um equipamento público que virou objeto de disputas políticas, concessões nebulosas e reformas intermináveis bancadas, em boa parte, pelo dinheiro do contribuinte. É fácil criticar o “gramado do vizinho” quando o próprio quintal é alugado — e subsidiado.
São muitas bravatas
“Se você não tem condição de praticar futebol em campo de grama, talvez não possa disputar a Série A”, escreveu Bap. A frase soa altiva, mas também hipócrita. Vinda de um clube que, por muito tempo, nadou em dívidas e inadimplência, parece ironia involuntária. Não custa lembrar a célebre frase de Vampeta: “Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo.” Por anos, o Flamengo viveu à sombra de gestões desastrosas, atrasando salários e multiplicando dívidas. Se hoje desfruta de estabilidade financeira, ótimo — mas isso não lhe dá licença moral para agir como fiscal da virtude alheia.
O debate sobre o fair play financeiro precisa ser mais do que uma vitrine de moral seletivo. É preciso discutir responsabilidade, transparência e sustentabilidade em um futebol que gasta mais do que arrecada, que depende de benfeitores eventuais e que se acostumou a conviver com a inadimplência institucionalizada. O Brasil precisa, sim, de um modelo que coíba aventuras e premie boa gestão — mas não pode começar com exclusões, vetos e bravatas.
Fair play
O risco é que uma boa ideia nasça viciada. E, se o tom inicial for o das cartas abertas com recado cifrado e dedo em riste, o que era para ser fair play corre o risco de virar apenas mais um jogo sujo.






Não entendi a comparação com o palmeiras que tb nao tem estadio próprio, pois aluga o estadio da WTorre, e ainda por cima com piso da kingsleague, campeonato de pelada society.