POR FABRÍCIO BARCELOS

Carmem Santiago estuda Física na USP. Não é portanto alguém que observa o mundo alheia às razões da natureza, salvo, quando neste mesmo mundo, se movimenta o Palmeiras. Aí o gélido comportamento científico se derrete sob a temperatura de emoções que seus 23 anos recém-completos são incapazes de domar.

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Passava das 22h de terça-feira quando Carmem Santiago fez circular uma mensagem, digitada com indisfarçada fúria: “Inacreditável, segunda vez na história que ganham da gente!”. O Novorizontino, sujeito oculto da frase, empilhara quatro gols no Palmeiras, como a naturalidade de quem sobe as escadas rolantes do Bourbon Shopping. Doeu profundamente, sobretudo por uma má vontade que ela vai, quase sem freios morais, transformando em violenta ingratidão.

Carmem Santiago não suporta mais Abel Ferreira, a quem, se fosse Caim, daria um fim de proporções bíblicas. Não com uma pedrada, porque tem pendores pacifistas. Bastaria emitir para o português uma passagem de volta para Lisboa para que sua vida, chacoalhada pelo caos da alma palmeirense, se reorganizasse sob a lógica previsível das leis da Física. De onde vem essa exuberante repulsa por um dos assalariados mais vitoriosos da história do clube?

TÉDIO E A PULSÃO POR MUDANÇAS

Talvez as ciências cujos compêndios Carmem Santiago devora sejam incompetentes para explicar. Em casos assim, o socorro chega sempre pela sociologia de boteco. Olha o caso do Marcu Bastos. Filho de pai porteiro, mãe doméstica, meteu a cara nos estudos e, com o empurrão da lei de cotas, entrou na São Francisco. Caiu no gosto de uns playboys, pegou estágio em banca de advogado graúdo e, quando formado, também com 23 anos recém-completos, subiu de andar social. No primeiro honorário, embolsou o que o pai levava anos para ganhar. Virou uma espécie de Palmeiras com Mundial.

Marcu Bastos então não suporta mais os governos com discurso social e, sempre que pode, tenta dar um fim neles, votando na direita. Meio que esqueceu o amparo social recebido pela família, as políticas de democratização do ensino público. Adotou uma retórica violenta em favor do individualismo, do mérito pessoal. Trata com desprezo qualquer proposta de sonho coletivo. De onde vem essa exuberante repulsa por um estado de coisas que, a rigor, só lhe trouxe benefícios?

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Carmem Santiago e Marcu Bastos são seres desejantes, que se adaptam com extrema naturalidade àquilo que é melhor. E se as coisas boas não progridem geometricamente ao infinito, quando a vida real impõe um 7 a 1, um 4 a 0, resta uma insatisfação. O tédio vira rapidamente uma pulsão por mudança, pouco importando o que venha depois. É humano, claro. Talvez por isso não seja exatamente justo.

QUEM É ELE

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.

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