O tempo: nunca soube lidar com ele. Lá nos vales alagadiços do Sul, onde nasci, parece correr mais lento. O sol se deita por trás dos morros, e a noite se derrama numa escuridão, até que a claridade brota do outro lado; tudo tão igual que a gente perde a conta dos dias. Não diria que é tédio, só quietude, contemplação, aceitação da espera.

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Quem vem de longe sabe esperar. Tudo em mim foi uma negociação com o tempo. Não enraizei naqueles campos, eterno objeto do apetite de rios barrentos, graças ao talento do meu pé esquerdo. Impulsionado por ele, fui marchando por ilhas, países baixos, desertos, metrópoles úmidas já do outro lado do mar.

Por alguns instantes, colhi felicidade e tive a impressão de querer parar. Mas sempre ouvi que o melhor estava mais adiante, e retomava despreocupadamente a estrada. Assim continuei, saboreando a véspera das coisas maravilhosas que nos aguardam.

À BEIRA DO ATLÂNTICO

Andei, até que cheguei a uma cidade maravilhosa, à beira do Atlântico. Nasci longe dali, mas, desde menino, fui ensinado a amar aquele lugar como se fosse meu. Se não era, hoje é. Conquistamos coisas grandes, em lonjuras e altitudes. A cada retorno, nosso povo sambava, se abraçava, apontava para o horizonte com sorrisos de cumplicidade. A festa terminava e, no mesmo instante, o coração começava a bater por heroicos e suaves desejos. A alegria vicia.

Lutei tanto, fiquei tão bom nas táticas do campo de batalha, que passei a comandar a tropa da cidade maravilhosa do alto de um forte. Desta mirada privilegiada, conduzi nossos homens pelo continente inteiro. Triunfamos na orla do Pacífico. Também venci guerras de resistência, nas quais se peleia por meses a fio, e outras, velozes, na lógica do matar ou morrer. Éramos fortes, versáteis, só tivemos uma derrota: o calor e a areia das arábias nos sufocaram diante de uma potência estrangeira. Na derradeira luta, furamos as linhas de defesa inimigas oito vezes.

À RETAGUARDA, O ATAQUE

Eu, que sou bom em esperar, não contava com o fogo amigo da retaguarda. Pensei, otimista, que fosse só mais uma escaramuça. Daqui do alto, compreendi que ruídos nem sempre são exércitos em refrega; às vezes são portas abrindo e fechando no quartel.

Mas o ataque do generalato que me colocou no alto do forte da cidade maravilhosa veio, brutal e sorrateiro. Quase instintivamente, me virei para trás, mas era tarde. Rendido, fui convidado a me retirar, saí e uma porta foi trancada às minhas costas, fechando o caminho de volta.

Sinto que alguma coisa mudou em mim. Nas janelas não mais aparecem figuras risonhas, só rostos estáticos. Se eu perguntar como volto ao vale alagadiço da minha infância, ainda me apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade. Na cidade maravilhosa, embriagada de triunfos e alegrias, o tempo escoa em irreparável fuga. Fui ensinado a amar esse lugar. Não a viver nessa velocidade.

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