Há mais de 20 anos, o então técnico Muricy Ramalho fazia um alerta sobre a má formação dos talentos brasileiros nas categorias de base. Com seu jeito até simplório de ver o futebol, Muricy parecia seriamente preocupado com o foco que a base dava ao espírito competitivo dos jovens — vencer acima de tudo — e negligenciava a lapidação técnica dos fundamentos: chute, passe, cabeceio, drible, domínio de bola, visão de jogo.

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Ampliando o alcance de sua preocupação, o treinador antevia que o futuro do futebol brasileiro sofreria com a falta do que ele chamava de “um camisa 10, um 8, um cara que pensa o jogo”. Pouca gente lhe deu ouvidos. Mas a conta chegou. E Muricy estava certo. A carência de jogadores de meio-campo capazes de pensar e organizar o jogo é latente em todos os clubes nacionais, da base ao profissional. Por extensão, o problema está instalado na seleção brasileira, que há mais de duas décadas não conquista um título de relevância internacional.

Rodrygo, do Real Madrid, poderia ser um desses jogadores de meio, mas ele se machucou e está fora da Cioa / CBF

Enquanto Muricy clamava no deserto, muitos treinadores apostaram na automação do jogador, na mecanização dos movimentos, na padronização do desenvolvimento com foco quase total na parte física. Era a fase da europeização do nosso estilo de jogo. Foi assim que criamos jogadores robotizados e perdemos a essência do craque brasileiro — aquele que misturava talento com malemolência, aptidão com picardia, inteligência com eficiência.

DNA adulterado

Depois da derrota da seleção para a França, no amistoso de quinta-feira, em Boston, muita gente até normalizou o resultado, considerando evidente o melhor padrão da equipe dirigida por Didier Deschamps. Natural que seja assim — hoje, perdemos inclusive o parâmetro de comparação. Na cabeça do torcedor médio, nossos jogadores que disputam a Champions League se equiparam aos de outras nacionalidades, e na Copa tudo será diferente. Esquecem, no entanto, que o DNA do futebol brasileiro está adulterado, perdido em algum lugar do passado.

Ao ignorarmos isso, aceitamos com naturalidade derrotas em duelos decisivos de Copas do Mundo para seleções menos cotadas, como Bélgica e Croácia, para ficar apenas nos dois últimos ciclos. Normalizamos também uma já evidente freguesia diante da França, que nos superou em Copas recentes e, nesta semana, nos empurrou para um choque de realidade.

Temos bons robôs

Sem tempo para mágica, Carlo Ancelotti tenta construir um time ao menos capaz de competir de igual para igual com as principais seleções do mundo. Restam apenas 76 dias para a abertura do Mundial — e é legítimo duvidar que ele consiga essa proeza. Esta janela de data-Fifa praticamente foi inútil para o trabalho: vários titulares não puderam ser convocados, e outros tantos foram chamados apenas para avaliação e acabaram cortados por lesão. Nesta sexta-feira, mais dois jogadores deixaram o grupo que enfrentará a Croácia: Raphinha e Wesley.

Lateral Wesley foi cortado nesta sexta-feira da selecão brasileira por lesão e volta imediatamente para Roma / CBF

Com tantos problemas, o time que vai a campo é um catadão que nunca jogou junto — e corre o risco de protagonizar mais um vexame internacional. A culpa não é de Ancelotti. A culpa é do futebol brasileiro, que não deu ouvidos aos alertas de Muricy Ramalho e de tantos outros que pensavam como ele. A fábrica de talentos do país do futebol mudou sua linha de montagem: passou a produzir robôs em vez de craques. Temos, sim, bons jogadores espalhados pelo mundo. Não se pode dizer que Vinícius Júnior, Raphinha, Estevão, Endrick e Bruno Guimarães não sejam bons jogadores. Mas é isso: são bons jogadores, nada além disso.

Cadê os nossos craques?

E o Brasil sempre se impôs no futebol mundial com algo a mais do que um grupo de bons jogadores. O mundo nos respeitava pela força da imagem de Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Romário, Tostão, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno, Cafu, Roberto Carlos, Didi, Vavá, Jairzinho, Sócrates, Falcão…

Qual foi o último craque que poderia integrar esse grupo? Talvez, com muitas ressalvas, reste apenas Neymar. Ele ainda está ativo, sonha com sua última Copa. Mas, convenhamos: sua condição física hoje inviabiliza qualquer projeto que o coloque como grande diferencial. Para falar a verdade, imaginar Neymar em campo contra a França seria até crueldade. Diante de Kylian Mbappé, Tchouaméni, Dembélé e companhia, muito provavelmente ele passaria vergonha.

A conclusão é óbvia — e devastadora para quem ama o futebol brasileiro: paramos no tempo, negligenciamos o nosso jeito de jogar, banalizamos o padrão do craque e agora estamos nas mãos do destino. Ah, como seria bom se tivéssemos um 10… um 8.

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