Havia um certo gosto de desconfiança no ar do Morumbis antes de a bola rolar. Três jogos sem vencer foram suficientes para reativar a velha engrenagem da fritura — rápida, barulhenta, quase sempre desproporcional. No centro dela, o técnico Roger Machado, recém-chegado, ainda tentando se apresentar em meio ao ruído. Bastou uma explicação mais elaborada após a derrota para o Palmeiras para que viesse o carimbo: “acadêmico demais”, “fala difícil”, “distante da realidade”. No futebol brasileiro, às vezes parece proibido pensar em voz alta.
Mas o futebol, quase sempre, escreve histórias a partir de contextos assim. Roger respondeu com um gesto corajoso para dar a volta por cima: 4 a 1 no Cruzeiro. Mexeu onde poucos esperavam, sacou o volante Danielzinho, abriu o time, empilhou atacantes e desenhou um São Paulo cheio de agressividade. Um 4-4-2 que, na prática, virava um ataque de quatro homens: Artur pela direita, Ferreirinha pela esquerda, Calleri e Luciano por dentro. Funcionou antes mesmo que o jogo pudesse oferecer resistência. Com Ferreirinha e Artur deitando e rolando pra cima da defesa cruzeirense.

Aos oito minutos, Marcos Antônio encontrou Artur infiltrando. O giro, a queda, o pênalti. Calleri bateu firme, sem susto — sexto gol no campeonato. Pouco depois, de novo Artur, puxando a transição com velocidade e clareza, servindo Ferreirinha, que finalizou de bico, com frieza, ampliando o placar. O Cruzeiro tinha mais a bola, mas o São Paulo tinha o jogo. Letal, direto, objetivo. Em menos de 20 minutos, a partida já tinha dono.
Ferreirinha estava impossível
Houve um susto, é verdade. Logo no início do segundo tempo, Arroyo entortou a defesa, cruzou e Christian diminuiu. Por um instante, o fantasma recente pareceu rondar outra vez. Mas aquela noite não era para recaídas. Era a noite das apostas de Roger. E elas voltaram a decidir. Aos 16, escanteio cobrado por Artur, desvio, bola na trave — e no rebote, Ferreirinha, de novo, firme, para marcar o terceiro e praticamente encerrar a história. Depois viria o quarto, a goleada, a reaproximação do topo da tabela, a vice-liderança retomada, a perseguição ao líder reativada.
Há algo de simbólico — e até poético — na maneira como o futebol reorganiza narrativas em questão de dias. O treinador que foi ridicularizado pelo vocabulário virou o autor de uma ideia ousada. O jogador esquecido virou protagonista. Ferreirinha, que não marcava desde novembro, fez três, o primeiro hat-trick da carreira. Artur, decisivo, participou de tudo. E Roger, sereno, saiu de campo sem revanche, sem euforia, apenas convicto do seu trabalho, de suas ideias e de suas palavras.
A vez de Roger Machado
Na beira do campo, sem alarde, ele sustentou sua crença. Bancou escolhas, arriscou caminhos, suportou a pressão. E foi recompensado não apenas pelo resultado, mas pela forma como ele veio. Porque a vitória sobre o Cruzeiro não foi um acaso: foi consequência direta de intervenção, leitura e coragem de mudar a escalação e o plano de jogo.

Ferreirinha, personagem improvável da noite, traduziu isso com simplicidade ao explicar sua comemoração. “Esse ano não tive muitas oportunidades. No time titular esse é meu primeiro jogo no ano, eu vinha jogando com a equipe reserva. Fui abraçar meus companheiros que disseram para eu aproveitar a oportunidade e, se eu fizesse gol, teria que ir lá comemorar com eles. Eu aproveitei, já dei um abraço em toda a comissão e jogadores. Feliz pelo primeiro hat-trick da carreira.”
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No fim, a Páscoa no Morumbis veio com um significado que o futebol gosta de resgatar de tempos em tempos: o da redenção rápida, quase instantânea. Dias atrás, a dúvida. Agora, a convicção renovada. Dias atrás, o ruído. Agora, a resposta em campo. O futebol é mesmo pródigo em criar histórias que nem os melhores roteiristas de cinema imaginariam.





