As coisas mudam muito rapidamente no futebol, ao sabor dos ventos dos resultados. Bastou o Corinthians mudar a postura e melhorar o rendimento técnico nos três primeiros jogos sob o comando de Fernando Diniz para que o astral virasse da água para o vinho. O que parecia terra arrasada com Dorival Júnior — lembram do executivo Marcelo Paz dizendo que “o trabalho dele bateu no teto”? — transformou-se rapidamente em um oásis de calmaria e esperança. Três jogos, duas vitórias, um empate heroico, nenhum gol sofrido, quatro gols marcados, Rodrigo Garro redivivo… Eis que surge um novo encantamento.

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A transformação é tão evidente que já se discute abertamente no clube a possibilidade de prescindir de Memphis Depay para a sequência da temporada após a Copa do Mundo — coincidindo com o fim de seu contrato. A ideia, que até pouco tempo soaria como heresia, começa a ganhar contornos de decisão racional, tanto do ponto de vista esportivo quanto financeiro.

Memphis Depay tem contrato com o Corinthians até junho, portanto antes da Copa do Mundo / Corinthians

Fernando Diniz encontrou, quase por acaso, uma solução interna. Kayke, antes encostado no elenco, virou aposta concreta para a vaga que era cadeira cativa de Depay ao lado de Yuri Alberto. O garoto entrou nas três partidas, respondeu bem, marcou na estreia da Libertadores e ganhou terreno na disputa com nomes como Vitinho, Dieguinho, Gui Negão e Kaio César. Ainda que seja cedo para decretar sua titularidade incontestável, o simples fato de ele hoje ser tratado como alternativa viável já muda completamente o eixo da discussão.

E não para por aí. Existe também a expectativa em torno de Jesse Lingard, contratado para ser protagonista, mas que ainda não conseguiu entregar o nível físico e competitivo exigido pelo futebol brasileiro. Sua adaptação, lenta até aqui, encontra justificativas naturais: novo país, nova cultura, novo modelo de jogo. Mas a comissão técnica aposta que o período de intertemporada durante a Copa será determinante para que ele, enfim, se aproxime do jogador que se imaginou ao contratá-lo.

Período de pausa para a Copa

Esse intervalo, aliás, é visto como crucial também para o próprio Fernando Diniz. Até aqui, sua atuação teve muito mais de bombeiro do que de construtor. Preservou as bases do trabalho deixado por Dorival, fez ajustes pontuais e reorganizou o ambiente. Ainda não houve tempo — nem espaço — para implementar de forma plena suas ideias e convicções. A pausa pode ser o ponto de inflexão entre o time que sobrevive e o time que passa, de fato, a jogar sob sua identidade.

Fernando Diniz está invicto como treinador do Corinthians e tem o desafio de subir a equipe no Brasileirão / Corinthians

Dentro desse contexto, o cenário que se abre permite, sim, imaginar um Corinthians sem Memphis Depay para o restante da temporada. E não apenas por uma questão tática. Há um conjunto de fatores que empurram o clube nessa direção.

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Fisicamente fragilizado mais uma vez, e em rota de colisão silenciosa com o departamento médico, Depay dá sinais claros de que sua prioridade está na Copa do Mundo. O tratamento acompanhado de perto pela seleção holandesa, a cautela extrema para evitar riscos e a disposição em ficar fora dos jogos do clube até estar 100% inteiro desenham um cenário delicado. Para o jogador, faz sentido. Para o clube, nem tanto.

Memphis perto do adeus

Afinal, que lógica há em sustentar um contrato de elite para um atleta que, neste momento, parece mais comprometido com o calendário da seleção do que com o do clube? Ao disputar a Copa, Depay também se reposiciona no mercado, reabre portas na Europa e Estados Unidos e amplia possibilidades fora do Brasil. É um jogo de interesses legítimos — mas assimétricos.

E, como pano de fundo de tudo isso, está a questão econômica. O Corinthians deve mais de R$ 40 milhões ao jogador dentro do contrato vigente. Não há caixa para quitar essa pendência com tranquilidade, muito menos margem para discutir uma renovação, ainda que em bases reduzidas. A dívida não é apenas um detalhe — é o centro do problema.

Outro timing

No fim das contas, o que antes parecia impensável começa a se desenhar como inevitável. Não por falta de qualidade de Memphis, mas porque o futebol, como a vida, é feito de timing. E o timing, hoje, aponta para uma separação que atende mais à realidade do clube do que ao peso do nome que um dia chegou para ser protagonista.

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