Acabou a espera — e com ela o mistério acalentado há praticamente um ano por Carlo Ancelotti. Neymar está na lista dos 26. Neymar está na Copa do Mundo de 2026. Mais importante do que discutir se o treinador tomou a decisão correta ou se cometeu um equívoco de proporções históricas, a reflexão que se impõe agora é muito mais prática do que filosófica: o que esperar de Neymar daqui para frente? Como ele pode ser útil ao Brasil no projeto do sonhado hexacampeonato? De que maneira um jogador já distante do brilho absoluto de outros tempos vai aceitar um papel periférico dentro do time principal? Até que ponto Neymar suportará não ser Neymar? Eis a questão.
A convocação feita por Ancelotti parece se basear mais em estratégia do que em convicção técnica absoluta. O italiano passou meses sustentando o discurso — justo, aliás — de que só contaria com atletas plenamente aptos física e mentalmente para servir à seleção brasileira. Neymar jamais esteve nesse patamar ao longo do último ano e dificilmente estará no auge da condição atlética até a estreia do Brasil no Mundial. Ainda assim, contrariando os próprios princípios, Ancelotti decidiu abrir espaço para o camisa 10, como se a estrela da companhia tivesse vaga cativa por herança do seu passado de craque.

E talvez tenha feito isso entendendo algo que vai além das quatro linhas.
Levar Neymar para a Copa também significa neutralizar um ruído potencialmente desgastante que se instalaria no país caso ele fosse deixado de lado. Em uma lista de 26 nomes, na qual o treinador provavelmente tinha dúvidas reais sobre apenas duas ou três vagas, excluir a maior referência midiática da geração brasileira poderia criar um ambiente de questionamento permanente.
Ancelotti nunca convocou Neymar
Uma brecha para parte da torcida, da imprensa e até do ambiente interno transformar a ausência do craque em pauta diária. Se o Brasil fracassasse no Mundial sem Neymar, a discussão inevitavelmente voltaria como uma sentença: “faltou o camisa 10”. Ancelotti parece ter preferido evitar esse campo minado.
No fundo, o raciocínio faz sentido. Melhor ter Neymar por perto do que distante. Melhor administrar o personagem dentro do grupo do que enfrentar o desgaste político de vê-lo do lado de fora. Afinal, se o Brasil vencer, todos vencem juntos. E se perder, ao menos ninguém poderá afirmar que a seleção abriu mão voluntariamente de seu jogador mais emblemático das últimas décadas. No mínimo prevalece a ideia de que Ancelotti dividiu a responsabilidade com o melhor jogador dessa geração.

Também pesa a realidade técnica do futebol brasileiro atual. A verdade é que o risco de injustiça era mínimo. Tirando Neymar, não havia nenhum nome fora da lista capaz de provocar um grande clamor popular. Quem precisava estar na Copa já estava encaminhado. Portanto, não se trata de tirar a vaga de alguém incontestável. A convocação pode até soar como um gesto simbólico, quase uma homenagem ao fim da trajetória de uma estrela gigantesca, mas não representa exatamente uma afronta meritocrática.
Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo
Agora, porém, essa discussão perde importância. A etapa do debate já passou. O foco precisa se deslocar para aquilo que Neymar ainda pode dar para a seleção. E ele ainda pode entregar coisas importantes. Mesmo longe do auge físico, Neymar continua sendo um jogador raro tecnicamente. Um nome que impõe respeito. Uma referência global do futebol, assim como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, outros símbolos de uma geração histórica que se aproxima do último grande ato. Sua presença tem peso emocional e psicológico. Para adversários, para companheiros e até para o ambiente externo de uma Copa do Mundo.
O que esperar de Neymar?
O que não se pode mais esperar é o Neymar de antigamente: dominante durante 90 minutos, suportando jogos intensos, acelerações constantes, perseguições físicas e marcações sufocantes. Seu corpo já não responde como antes. Seu futebol precisará ser administrado. Dosado. Inteligente.
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E talvez seja exatamente aí que esteja a grande missão de Ancelotti. Se conseguir convencer Neymar de que ele é apenas mais um dentro da engrenagem — sem privilégios, sem centralidade absoluta, sem a obrigação de carregar o piano sozinho —, o treinador poderá encontrar um jogador extremamente útil em contextos específicos. Neymar pode ser uma arma de segundo tempo. Um recurso técnico para partidas travadas. Um especialista em bola parada. Um cobrador frio para decisões por pênaltis. Um passe milimétrico quando faltar criatividade. Um lampejo num jogo emocionalmente congestionado. Neymar ainda tem repertório.
Preservado fisicamente, entrando por 20 ou 30 minutos, Neymar talvez consiga ser mais decisivo hoje do que seria tentando sustentar um protagonismo que já não combina com sua realidade atual. No fim das contas, é cedo para cravar se Ancelotti acertou ou errou. A convocação ainda pertence ao terreno da teoria. O futebol, como sempre, dará sua sentença apenas quando a bola rolar. Até lá, restará ao Brasil conviver com a expectativa, com a dúvida e com a esperança de que, mesmo já distante do auge, Neymar ainda consiga reservar um último capítulo relevante para sua história na seleção.





