A exatos 24 dias do jogo de abertura da Copa do Mundo da Fifa de 2026, o Brasil finalmente conheceu a lista dos 26 jogadores convocados por Carlo Ancelotti para o desafio da conquista do hexa. A cerimônia no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, foi tratada pela CBF como uma superprodução — mais para atender ao complexo de grandiosidade da entidade e de seus dirigentes do que, propriamente, para justificar o fato em si. O puro e simples anúncio da lista poderia perfeitamente ter sido comunicado através de um post no Instagram da confederação, é verdade, mas isso contrariaria a lógica de revestir de eloquência um ato meramente burocrático.
Bem ou mal, a festa armada no Rio, com direito a shows de artistas que já viraram figurinhas carimbadas em eventos do gênero, alimentou a ideia de que a seleção brasileira segue sendo uma das mais importantes — e não necessariamente a maior delas — potências de uma Copa do Mundo. Com o peso de uma camisa que carrega cinco estrelas de títulos mundiais, o Brasil ainda continua sendo o País do Futebol dentro do ecossistema das Copas. Tanto que a convocação teve a cobertura de mais de 700 jornalistas credenciados, representando veículos de comunicação de 14 países. Nenhuma outra seleção do mundo desperta tamanha mobilização nem possibilita alcance semelhante.

Pena que o Brasil retratado na festa não seja exatamente o espelho do Brasil que vai entrar em campo a partir de 13 de junho, data da nossa estreia contra Marrocos. Há um abismo entre o Brasil do imaginário coletivo e o Brasil real. Se a história justifica tanta admiração, o presente nos sugere mais preocupações e desconfianças. Difícil encontrar algum torcedor brasileiro que, de maneira racional, aponte a seleção dos dias atuais como favorita ao próximo título mundial. A dificuldade enfrentada nas Eliminatórias já serviria como parâmetro suficiente para desnudar esse momento de fraqueza e instabilidade. Uma comparação honesta com as outras seleções tradicionais nos coloca, forçosamente, numa posição de inferioridade. O recente amistoso contra a França talvez tenha sido o choque de realidade que faltava para nos fazer entender que hoje ocupamos uma prateleira abaixo das grandes potências do futebol mundial.
Retrospecto de não ser favorito
Nada disso, porém, é definitivo. Aliás, historicamente, nas cinco conquistas anteriores o Brasil jamais chegou como franco favorito. Pelo contrário: em alguns casos, a seleção saiu de casa afundada em críticas e cercada de desconfiança absoluta. Em 1970, ano do tri conquistado no México, o período pré-Copa foi tão ruim — ou até pior — do que o vivido agora nesse ciclo errático, marcado pela troca de treinadores e por desencontros dentro e fora de campo. Em 1994, no ano do tetra nos Estados Unidos, o Brasil ainda carregava o ranço deixado pela seleção de Sebastião Lazaroni em 1990, injustamente batizada de “Era Dunga”, como se aquele tivesse sido um período de trevas futebolísticas. Mesmo em 2002, quando talvez tivéssemos a melhor geração pós-82, o título parecia um sonho quase utópico porque Felipão havia deixado para trás o maior herói nacional da época: Romário. O Baixinho acabou preterido pela teimosia do treinador, mais preocupado em proteger a chamada “Família Scolari” de um craque que também funcionava como rastilho de pólvora dentro do ambiente interno.
Esse conhecimento histórico nos ajuda a abrir algum horizonte de esperança para a conquista do hexa, ainda que reconheçamos que não somos favoritos a absolutamente nada. Ainda não superamos as cicatrizes daquele 7 a 1 sofrido diante da Alemanha no Mineirão, nem as eliminações traumáticas para Bélgica e Croácia nas duas Copas sob o comando de Tite. Nesse período, o Brasil ficou para trás, parado no tempo e preso às glórias do passado. Mas o bom do futebol é justamente isso: as esperanças se renovam a cada ciclo. E eis que agora temos diante de nós a oportunidade de acabar com o jejum de 24 anos sem colocar as mãos na taça.
A força que vem do banco de reservas
Curiosamente, nossa maior arma desta vez talvez não esteja dentro de campo, mas à beira dele. Carlo Ancelotti, o italiano que conquistou os maiores troféus do futebol europeu como técnico de clubes, inicia sua caminhada na Copa do Mundo sabendo que está diante do maior desafio de sua carreira. Sua escolha é incontestável. Sua presença fortalece o futebol brasileiro e devolve à seleção uma sensação de relevância estratégica que parecia perdida nos últimos anos.
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Infelizmente, a lista dos 26 jogadores anunciada nesta tarde não dialoga com a qualidade técnica individual de outras gerações. Tanto que o único nome capaz de provocar algum debate nacional era o de Neymar — e já não estamos falando nem de perto do Neymar de anos atrás. Longe disso. A convocação de Ancelotti é um espelho fiel do atual momento do futebol brasileiro: uma coletânea de bons jogadores, alguns protagonistas em grandes clubes da Europa, mas nada além disso. Não temos mais unanimidades. Não temos mais gênios. Não temos mais bruxos. Não temos mais fenômenos.
O que restou está aí, convocado, para um desafio imenso. Talvez pela primeira vez estejamos diante de uma lista sem grandes injustiças — justamente pela ausência de injustiçados convincentes a defender. Para boa parte da torcida, muitos desses jogadores sequer seriam reconhecidos nas ruas, nos bares ou nos shoppings das grandes cidades porque são, sem culpa alguma, produtos de uma seleção brasileira que há tempos perdeu conexão com o povo e com o país.
Mas é com eles que teremos de ir. Todos juntos.
Olhar para dentro de campo
O time da estreia não deve apresentar grandes novidades em relação àquele que Ancelotti já vinha sinalizando como sua formação ideal. Talvez apenas com a ausência forçada de Estêvão, que poderia ser a grande estrela emergente desta geração e acabou fora da Copa por lesão. Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro, Bruno Guimarães e Matheus Cunha; Raphinha, Gabriel Martinelli e Vinícius Júnior talvez sejam os escolhidos.

Não adianta ficarmos olhando para trás sonhando com Pelé, Ronaldo, Romário, Rivaldo, Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão, Zico, Sócrates, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Aldair, Garrincha, Roberto Carlos ou Cafu. Deixemos nossos ídolos em paz, em respeito ao que fizeram.
Agora, o que nos resta é jogar com o coração — e com a velha crença de que, quando o assunto é futebol, Deus continua sendo brasileiro.





