Há uns dois meses conseguimos, enfim, completar uma turma para jogar futebol aqui na firma. Somos 20, mas um terço só aparece quando o Trump faz por merecer um prêmio pela paz mundial. No complexo de quadras onde jogamos, somos também o time campeão do ranking da média de peso – embora seja difícil sustentar a posição tendo de correr pelos faltosos. Fora a irritação com os flocos de borracha da quadra sintética, que grudam na chuteira e só se soltam quando entramos em casa, tem sido divertido. Porém, uns se divertem muito mais. Já explico por quê.
Primeiramente, devo esclarecer que sou defensor por uma questão filosófica. Nunca me deixei seduzir pelo prazer raso dos atacantes, única posição onde é possível obter glórias sem uma gota de suor. Há uma contribuição silenciosa, e mais épica, que só zagueiros ou volantes são capazes de prover.

Se me permitem uma analogia com a arquitetura, um time só de atacantes é tão improvável quanto uma Barcelona feita só de Gaudí, sem Güell. Foi Güell, o industrial que financiou os delírios arquitetônicos do artista catalão, o coautor de uma das paisagens urbanas mais singulares do planeta. E acho que a comparação é esta mesma: zagueiros e volantes são mecenas dos atacantes.
QUEM JOGA ATRÁS?
No primeiro jogo, sem conhecer a preferência dos colegas, fui recrutar companheiros para a defesa. Fiz duas abordagens e ambos disseram que sim, “jogavam atrás”, que é o eufemismo usado para designar um zagueiro. Montei a retranca e a bola rolou. Cinco minutos depois, me vi sozinho com dois adversários.
GOL DELES, CLARO
Minha solidão se repetiu por mais umas quatro vezes e, na vergonhosa goleada, percebi que os colegas haviam mentido. Ninguém “jogava atrás”. Procuravam o prazer descompromissado e mundano de um atacante. Ainda bem que o fenômeno só ocorre conosco, né? A superpopulação de atacantes diz muito sobre o andar das coisas. Não temos mais responsabilidade em razão do outro, salvo se esse outro for meu empregador e dele depender o meu sustento. Mesmo num esporte coletivo, estamos num salve-se-quem-puder. Pensar no bem comum? Isso seria como ser um zagueiro, 24 horas por dia.
Uns dois jogos atrás, vendo os adversários ocupando os vácuos deixados pelos zagueiros que viraram atacantes por decisão unilateral, praguejei e fui lá para frente. Experimentei como se fosse um manjar divino o sabor da irresponsabilidade. Foi maravilhoso para mim, mas fomos sobrepujados humilhantemente. Então, sábado que vem, lá estarei eu cumprindo minha sina de mecenas, como um Güell de Gaudís menos talentosos.





