A invencibilidade defensiva da Espanha nesta Copa do Mundo começou, ironicamente, numa eliminação. Em 2022, no Catar, a seleção espanhola caiu diante de Marrocos nas oitavas de final depois de um 0 a 0 ‘interminável’, decidido nos pênaltis. Saiu de campo carregando uma das críticas mais duras que uma equipe associada à posse de bola pode receber: muito passe, pouca ameaça, nenhum veneno. Quatro anos depois, a história ameaça brincar de novo com a Fúria. A Espanha é a única seleção entre as oito sobreviventes que ainda não foi vazada neste Mundial. E, ainda assim, pode voltar para casa sem sofrer um mísero gol.
No centro dessa ironia está Unai Simón. O goleiro do Athletic Club não é o personagem mais barulhento da Espanha, não tem o magnetismo de Lamine Yamal, a autoridade de Rodri ou a elegância de Pedri. Mas é ele quem aparece como rosto estatístico de uma campanha defensiva quase absurda. Cinco jogos nesta Copa, cinco partidas sem buscar a bola no fundo da rede. Se for considerado também o 0 a 0 contra Marrocos, em 2022, a Espanha já soma seis jogos consecutivos de Copa do Mundo sem sofrer gol. É uma muralha que atravessa ciclos, técnicos, traumas e debates.

Unai Simón espanta pressão
Dono da posição deste o Mundial do Catar, Unai Simón chegou ao Mundial longe de qualquer unanimidade confortável. No Athletic, viveu uma temporada pesada, de muita exposição, muitos jogos sob pressão e uma equipe menos protegida do que a seleção espanhola. Ao mesmo tempo, a concorrência deixou de ser decorativa. David Raya, campeão e protagonista no Arsenal, passou a ser mais do que uma sombra. Joan García, do Barcelona, também entrou na conversa depois de ser eleito o melhor da posição no Campeonato Espanhol. De la Fuente manteve Simón como titular, mas o ambiente ao redor dele já não era o de um goleiro intocável. Era o de um goleiro que precisava confirmar, na Copa, por que seguia sendo o número 1.
Mas o caso de Unai Simón é mais complexo do que uma sequência de defesas espetaculares. Esta não é a Copa de um goleiro massacrado por bombardeios. Ao contrário. A grandeza dele está em outro lugar: na frieza de quem passa longos períodos sem participar do jogo e, quando finalmente é chamado, não tem direito ao erro. Contra Portugal, como aconteceu nas quatro partidas anteriores, a Espanha quase não sofreu na retaguarda, apertou marcou aos 45 minutos do segundo tempo, com Merino. Só aí que precisou da concentração de Simón para atravessar os minutos em que Cristiano Ronaldo e companhia tentaram transformar o clássico ibérico em drama. O goleiro espanhol não vive de milagres em série. Vive de presença, leitura e silêncio.
O recorde
Para colocar a marca em perspectiva, Unai Simón não apenas emendou seis jogos de Copa sem sofrer gol: ele passou por cima de um recorde que atravessara 36 anos. Walter Zenga, lenda da Itália, havia ficado 517 minutos sem ser vazado no Mundial de 1990, uma sequência construída desde a estreia da Azzurra até a semifinal em Nápoles, quando Claudio Caniggia, aos 22 minutos do segundo tempo, empatou para a Argentina e abriu o caminho da queda italiana nos pênaltis.
Simón já levou essa fronteira a 609 minutos, numa série que começou depois do último gol sofrido diante do Japão, em 2022, passou pelo 0 a 0 traumático contra Marrocos e atravessou limpa os cinco primeiros jogos da Espanha em 2026. A diferença entre as duas marcas ajuda a medir a ironia: Zenga caiu no único jogo em que foi vazado; Simón ainda corre o risco oposto, o de deixar a Copa sem sofrer um mísero gol.
Por que o goleiro trabalha pouco?
A fortaleza espanhola começa muito antes dele. Começa no pé. A Espanha sofre pouco porque permite pouco. E permite pouco porque controla quase tudo. É o time que usa a posse não como enfeite, mas como mecanismo de segurança. A bola circula, o rival corre, o campo encolhe para o adversário e aumenta para os espanhóis. Rodri organiza a primeira proteção. Pedri dá pausa e aceleração. Dani Olmo, Fabián Ruiz, Mikel Merino e companhia fazem o meio-campo funcionar como um sistema de portas giratórias: quando um sai, outro cobre; quando um perde, outro aperta; quando o adversário respira, já há alguém encostando.
Esse é o ponto que separa análise de achismo. A Espanha não é a melhor defesa do Mundial porque passa 90 minutos dando carrinho. Não é uma fortaleza construída no desespero, no chutão, no rebote, no zagueiro salvando em cima da linha. É uma equipe que se defende atacando o espaço antes que o espaço exista. A pressão pós-perda é parte essencial desse desenho. O atacante que perde a bola vira o primeiro marcador. O meia que erra o passe vira o primeiro bombeiro. O lateral que sobe já sabe quem o protege por dentro. A defesa não começa em Laporte, Pau Cubarsí, Cucurella ou Pedro Porro. Começa em Oyarzabal, Lamine Yamal, Nico Williams, Baena, ou quem estiver mais perto da bola.
Por isso, a estatística de desarmes pode enganar. Um time que desarma demais, muitas vezes, é também um time que passa tempo demais sem a bola. A Espanha não quer vencer o jogo no bote. Quer vencê-lo antes do bote, pela ocupação, pelo passe, pela superioridade numérica, pela pressão coordenada. Quando o adversário finalmente olha para frente, quase sempre já está de costas para o gol de Simón, cercado por camisas vermelhas, sem linha limpa de passe e sem tempo para escolher.

Perigo em campo
Há, porém, um fantasma que a Espanha conhece bem. O controle pode virar anestesia. A posse pode virar prisão. Foi essa a cobrança de 2022, quando a eliminação para Marrocos transformou o 0 a 0 em símbolo de esterilidade, sob o comando de Luis Enrique. A Espanha de De la Fuente é mais vertical, mais agressiva, mais variada. Dois laterais versáteis, Pedro Porro e Cucurella, tem Lamine Yamal para quebrar marcações no drible, tem Merino para decidir pelo alto e pelo oportunismo, tem Oyarzabal para atacar espaços, tem Ferran Torres para sair do banco e mudar o ritmo. Mas o risco permanece: em mata-mata, uma defesa perfeita não basta se o ataque não resolve antes dos pênaltis.
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A Espanha de 2026 parece ter aprendido a se defender melhor sem abrir mão de ser Espanha. A pergunta é se aprendeu também a matar os jogos antes que o destino volte a cobrar, com crueldade, a velha fatura. Porque Unai Simón pode até fechar o gol. Mas nem sempre fechar o gol é suficiente para abrir caminho até o título.





