O último amistoso antes de uma Copa do Mundo raramente serve para encontrar verdades absolutas. Serve mais para revelar incômodos, confirmar intuições e expor detalhes que, em competição curta, podem separar uma campanha tranquila de uma crise instantânea. É por isso que o Egito, adversário do Brasil, neste sábado, às 19h (horário de Brasília), em Cleveland, nos Estados Unidos, não deve ser tratado apenas como figurante da despedida. O encontro é um teste com cara de Copa: inferior tecnicamente, perigoso em transição, emocionalmente mobilizado e cheio de jogadores capazes de punir qualquer distração brasileira.
A própria escolha do adversário ajuda a entender o momento. O Brasil fecha sua preparação contra o Egito no Huntington Bank Field, uma semana antes da estreia no Mundial, contra o Marrocos, no próximo sábado, às 19h (horário de Brasília), em Nova Jersey. O rival tem estilo de jogo parecido com o dos egípcios. Para Carlo Ancelotti, é o tipo de jogo que vale menos pelo placar e mais pela maneira como a seleção brasileira vai se comportar quando tiver a bola, perder a bola e precisar reorganizar o campo em poucos segundos.

Egito prega respeito
Do lado egípcio, a partida é vista como o teste mais duro da preparação. A imprensa local tratou o duelo com o Brasil como o maior desafio antes da Copa, especialmente porque os egípcios chegam embalados por uma sequência defensiva consistente e por resultados que alimentam alguma confiança antes do Mundial. O Egito chega embalado por vitória sobre a Rússia, goleada sobre a Arábia Saudita e empate com a Espanha, além de quatro jogos seguidos sem sofrer gols. Não se trata, portanto, de uma seleção em excursão protocolar. O Egito chega aos Estados Unidos tentando medir o tamanho real de sua competitividade.
Esse é o ponto que mais interessa ao Brasil. O Egito provavelmente vai aceitar jogar menos tempo com a bola, proteger sua área, fechar corredores internos e esperar o momento certo para acelerar. É uma proposta simples de descrever e difícil de enfrentar quando há jogadores como Mohamed Salah (Liverpool), Omar Marmoush (Manchester City) e Mahmoud Trezeguet (Al-Ahly, Egito) do outro lado. Salah continua sendo o farol técnico e simbólico da seleção. Marmoush dá potência e profundidade. Trezeguet acrescenta experiência, leitura de espaço e chegada. Astro mundialmente conhecido, Salah é o líder da lista egípcia para a Copa e Marmoush é uma das principais armas ofensivas da equipe do técnico Hossam Hassan.
Duelo de estilos
Por isso, o jogo conversa diretamente com uma das maiores obsessões de qualquer seleção favorita: a defesa da própria posse. O Brasil de Ancelotti quer atacar, quer ocupar o campo rival, quer juntar talento na linha de ataque. Mas toda escolha ofensiva cobra pedágio. Se os laterais subirem ao mesmo tempo, se os meio-campistas perderem duelos por dentro, se os atacantes não pressionarem a primeira saída adversária, o Egito terá exatamente o cenário que procura: campo aberto, defesa brasileira correndo para trás e Salah ou Marmoush atacando o espaço.
É aí que o amistoso deixa de ser amistoso. Contra adversários que atuam recuados e se armam para contragolpes rápidos, a seleção brasileira precisa mostrar maturidade coletiva. Não basta criar volume. É preciso atacar com segurança. Não basta empilhar jogadores de talento. É preciso manter distâncias curtas. Não basta pressionar depois da perda. É preciso saber quem pressiona, quem cobre e quem protege a zona central. O Egito é útil justamente porque não exige do Brasil apenas criatividade. Exige responsabilidade.
Ambição egípcia
Hossam Hassan, maior artilheiro da história da seleção egípcia e agora responsável por comandar o país em uma Copa, tem um componente emocional importante nas mãos. O Egito não disputa o Mundial apenas para participar. A ambição interna é tentar avançar ao mata-mata pela primeira vez. A chave do Egito na Copa ajuda a explicar a importância do amistoso. A seleção africana está no Grupo G, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Irã. A estreia será contra os belgas, em Seattle (dia 15); depois virão Nova Zelândia (dia 21), em Vancouver, e Irã, novamente em Seattle (dia 27). O Brasil, portanto, entra no roteiro egípcio como simulação de estresse: um adversário de camisa pesada, repertório técnico superior e capacidade de punir qualquer erro.
A provável escalação também indica uma equipe preparada para competir mais do que propor. O time mais provável: Mostafa Shobeir; Karim Hafez, Rami Rabia, Yasser Ibrahim e Hamdi Fathi; Mohannad Lasheen, Marwan Attia e Emam Ashour; Trezeguet, Omar Marmoush e Mohamed Salah. É uma formação que pode se desenhar como 4-3-3, mas que, sem bola, tende a atuar recuado e transformar o trio de meio em escudo à frente da defesa.
Há também ausências e escolhas que ajudam a contar a história. Mostafa Mohamed, atacante do Nantes, ficou fora da lista, em decisão que ganhou repercussão porque ele vinha sendo nome recorrente da seleção. Apesar disso, abriu espaço para alternativas como Hamza Abdelkarim, jovem ligado ao Barcelona. Isso reforça a ideia de que Hossam Hassan não está apenas premiando hierarquia. Ele tenta montar um grupo funcional para um tipo muito específico de Copa.

Histórico do confronto
O histórico entre Brasil e Egito, por sua vez, entrega uma vantagem absoluta da seleção brasileira. Segundo dados da CBF, foram seis confrontos desde 1960, todos com vitória brasileira, sendo o mais importante o 4 a 3 pela Copa das Confederações de 2009, em Bloemfontein, na África do Sul, com gols de Kaká, duas vezes, Luís Fabiano e Juan. Mas retrospecto não entra em campo, ainda mais em amistoso de véspera de Copa. O Brasil já sabe que é melhor do que o Egito. A pergunta é outra: consegue jogar como favorito sem se comportar como uma equipe ansiosa? Consegue dominar sem se partir? Consegue empurrar o adversário para trás sem transformar cada perda de bola em convite ao susto?
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Este é o verdadeiro valor da partida. O Egito não chega para medir a grandeza histórica do Brasil. Chega para testar sua organização. Se Ancelotti procura respostas antes da estreia, talvez encontre algumas justamente nos momentos em que o Brasil não estiver atacando. Porque a Copa costuma ser cruel com seleções que confundem superioridade técnica com controle de jogo. Contra Salah, Marmoush e Trezeguet, o Brasil terá um lembrete útil antes do Mundial: atacar bem também é saber se proteger. E, a poucos dias da estreia, talvez não exista ensaio mais necessário do que esse.





