A Copa do Mundo sempre encontra um jeito de transformar uma partida de primeira rodada em história pessoal. Na noite em que a Suécia estreou com um vareio de bola sobre a Tunísia, que terminou 5 a 1, em Monterrey. O personagem central não foi apenas o placar elástico, nem somente a força de uma seleção europeia que voltou ao Mundial disposta a recuperar protagonismo. Foi Yasin Ayari, meio-campista nascido na Suécia, filho de pai tunisiano, autor de dois gols, quem deu ao jogo a camada humana que separa uma goleada comum de uma daquelas cenas que o torneio costuma guardar.
O gesto veio cedo, ainda no começo do jogo, quando a Tunísia mal tinha tido tempo de entender a pressão sueca. Depois de uma bola longa, uma saída mal resolvida da defesa e um rebote na entrada da área, Ayari acertou um chute forte, limpo, sem pedir licença. A bola entrou, a torcida sueca explodiu, os companheiros correram para abraçá-lo. Ele, porém, ergueu as mãos, como quem pede desculpas. Não era frieza. Era respeito.

O pai de Ayari é tunisiano. A Tunísia chegou a tentar convencê-lo a defender suas cores. Ele preferiu a Suécia, país onde nasceu, cresceu, foi formado e construiu sua trajetória no futebol. Contra a seleção que também poderia ter sido sua, abriu o caminho e fechou uma vitória que teve peso na tabela, mas também no peito.
Suécia mandou no jogo inteiro
A partir dali, a partida deixou de ser equilibrada. A Tunísia, que entrou na Copa carregando a reputação de equipe sólida defensivamente, ruiu diante de uma Suécia mais direta, mais física e muito mais agressiva no último terço. Nas Eliminatórias africanas, os tunisianos haviam construído campanha de enorme consistência, sem sofrer gols. Contra os suecos, esse escudo caiu com violência. Foram cinco gols em uma estreia que deixou exposto tudo o que Sabri Lamouchi não queria ver logo na largada: defesa espaçada, saída de bola insegura, pouca reação emocional e dificuldades enormes para lidar com a dupla formada por Alexander Isak e Viktor Gyökeres.
Isak fez o segundo ainda no primeiro tempo, em jogada que resumiu a diferença técnica entre as equipes. Gyökeres protegeu a bola, esperou o movimento do companheiro e acionou o atacante em velocidade. Isak carregou, cortou para dentro e finalizou com a tranquilidade de quem sabe que, em Copa, uma chance limpa pode mudar o tamanho de uma seleção.
Esperança e vacilo fatal
A Tunísia reagiu antes do intervalo. Omar Rekik marcou de cabeça, após cruzamento de Hannibal Mejbri, e levou o jogo para o descanso com uma fresta de esperança. O placar de 2 a 1 ainda permitia imaginar uma segunda etapa tensa, talvez até perigosa para a Suécia. Mas a impressão durou pouco.
No segundo tempo, o que se viu foi uma Suécia adulta. Não necessariamente brilhante o tempo todo, mas eficiente, cruel e consciente das fragilidades do adversário. Gyökeres fez o terceiro depois de erro tunisiano na saída de bola, aproveitando assistência de Isak. Era o gol que acabava com qualquer tentativa de retomada africana. A partir dali, a Tunísia se desmontou.
A goleada ganhou contornos definitivos nos minutos finais, quando a Suécia transformou superioridade em placar. No seu primeiro toque na bola, Svanberg fez o quarto, aos 39min, mas teve que comemorar duas vezes por causa da consulta ao VAR. Por fim, aos 51min, Ayari voltou a aparecer para marcar o segundo dele na noite e fechar o roteiro que parecia escrito antes mesmo da bola rolar: justamente o jogador dividido entre duas origens foi quem mais pesou contra a seleção de suas raízes familiares.
Sem exagerar na celebração, sem transformar o gesto em provocação, ele saiu do jogo como símbolo de uma Copa cada vez mais marcada por identidades cruzadas, famílias espalhadas e escolhas difíceis feitas antes de a bola começar a rolar.

Liderança sueca
Para a Suécia, a vitória tem valor muito além dos três pontos. Depois do empate entre Holanda e Japão no outro jogo do Grupo F, os suecos largam na liderança, com saldo robusto e a sensação de que podem competir em um grupo que parecia desenhado para holandeses e japoneses disputarem o protagonismo. A equipe de Graham Potter mostrou repertório: bola longa, pressão, transição rápida, presença física, finalização de qualidade e uma frente ofensiva capaz de castigar qualquer erro.
Para a Tunísia, a derrota é daquelas que deixam marcas. Não apenas pelo 5 a 1, mas pela forma como a equipe perdeu o controle depois de sofrer o terceiro gol. A seleção africana ainda terá Japão e Holanda pela frente. Se queria fazer história e enfim passar da fase de grupos pela primeira vez, terá de se reconstruir rapidamente.
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A Suécia, por outro lado, começou a Copa dizendo mais do que o placar mostra. Disse que tem força, tem ataque, tem organização e tem personagens. E, nesta estreia, nenhum personagem foi maior do que Ayari: o filho de tunisiano que respeitou suas origens, não comemorou como os outros, mas decidiu como poucos.





