A Copa do Mundo de 2026 teve, neste domingo, um daqueles dias que ajudam a explicar um torneio inteiro. Foram quatro jogos, quatro histórias e um mesmo recado: a nova Copa é maior, mais diversa, mais desigual em alguns confrontos, mas também mais perigosa para quem entra em campo acreditando apenas no peso da camisa ou na lógica do favoritismo.
O dia começou com a Alemanha fazendo aquilo que se espera de uma potência diante de uma seleção estreante. O 7 a 1 sobre Curaçao, pelo Grupo E, foi uma demonstração de força, profundidade e eficiência ofensiva. A seleção alemã transformou a diferença técnica em placar com naturalidade e abriu o torneio como quem deseja recolocar a própria camisa no lugar que ela se acostumou a ocupar. Depois de duas Copas recentes frustrantes, com quedas ainda na primeira fase em 2018 e 2022, a estreia serviu como uma espécie de reentrada alemã no ambiente dos candidatos.

Alemanha está faminta
Mas até em uma goleada desse tamanho houve espaço para uma história paralela. Curaçao, estreante em Copas, marcou seu primeiro gol na história do torneio. Foi um instante breve, porque a Alemanha retomou o controle logo depois, mas suficiente para lembrar que, em uma Copa expandida para 48 seleções, nem toda derrota pesada cabe apenas na frieza do placar. Para Curaçao, aquele gol foi memória. Para a Alemanha, o jogo foi obrigação cumprida. Para o torneio, foi o retrato mais claro da distância que ainda separa parte da elite mundial dos novos personagens do Mundial.
Se Alemanha x Curaçao mostrou a hierarquia, Holanda x Japão caracterizou pelo outro lado da Copa. A seleção holandesa esteve duas vezes em vantagem, mas não conseguiu matar o jogo. O Japão buscou o empate duas vezes e arrancou o 2 a 2 em uma partida que teve cara de afirmação. A Holanda continua sendo uma seleção de tradição, camisa pesada e talento, mas o Japão já deixou há algum tempo de ser tratado como surpresa simpática de Mundial.
A equipe asiática é madura, competitiva, organizada e acostumada a enfrentar rivais grandes sem se desmontar emocionalmente. Pontuar contra uma potência europeia logo na estreia pode valer muito em um grupo em que também aparecem Suécia e Tunísia. Mais do que isso: o empate reforçou uma tendência que a Copa vem mostrando há alguns anos. A distância entre os continentes diminuiu. O Japão não joga mais para sobreviver contra gigantes. Joga para competir.
Gol quase no último suspiro
O terceiro ato do domingo de Copa veio com menos gols, mas impacto competitivo enorme. A Costa do Marfim venceu o Equador por 1 a 0, com gol de Amad Diallo aos 45 minutos da etapa final, e abriu o Grupo E com um resultado de peso. Não foi apenas uma vitória africana na estreia. Foi uma vitória contra uma seleção equatoriana que chegava ao Mundial sustentada por uma das defesas mais consistentes do ciclo.

Por isso, o gol no fim teve cara de aviso. A Costa do Marfim mostrou algo que vale muito em torneios curtos: paciência para não se desesperar, banco para mudar a partida e capacidade de vencer um jogo travado no detalhe. Em um grupo que também tem Alemanha e Curaçao, largar com três pontos contra o Equador muda o tamanho da próxima rodada. Alemanha x Costa do Marfim já nasce como confronto de liderança, enquanto Equador x Curaçao passa a ter cheiro de sobrevivência.
Suécia é impiedosa
E quando parecia que o domingo já tinha entregado todos os seus contrastes, veio a Suécia. O 5 a 1 sobre a Tunísia, pelo Grupo F, completou a narrativa do dia com outra goleada europeia, mas em contexto diferente da Alemanha. O placar não foi o maior da história sueca em Copas — marca que pertence ao 8 a 0 sobre Cuba, em 1938 —, mas representou uma das estreias mais contundentes da seleção em Mundiais. Mais do que isso, não era uma potência histórica atropelando uma estreante. Era uma seleção que voltou à Copa depois de ausência em 2022 mostrando que não pretende ser coadjuvante em uma chave que tem Holanda e Japão.
A goleada sueca muda imediatamente a leitura do Grupo F. O empate entre Holanda e Japão, que parecia abrir espaço para equilíbrio, ficou ainda mais interessante depois da entrada em cena da Suécia. Com cinco gols, os suecos assumem peso na briga não apenas pela classificação, mas também pela liderança da chave. E isso torna o próximo duelo com a Holanda um daqueles jogos capazes de reorganizar todo o grupo.

Sabor de quero mais
No conjunto, o domingão ofereceu uma boa síntese da nova Copa. A expansão cria jogos em que a diferença técnica pode virar goleada. Mas também abre a porta para seleções que chegam mais preparadas, mais globalizadas e menos intimidadas. A Alemanha atropelou porque ainda existe elite. O Japão empatou porque já não aceita papel menor. A Costa do Marfim venceu porque soube jogar uma partida de torneio. A Suécia goleou porque entendeu que, em grupo equilibrado, saldo também é mensagem.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
E é aí que está a graça do Mundial da Fifa. A Copa ficou maior, sim. Mais longa e espalhada e mais cheia de personagens. Mas não necessariamente mais previsível. Entre o 7 a 1 da Alemanha, o empate japonês, o gol de Amad Diallo aos 90 minutos e a goleada sueca no fechamento da noite, a rodada mostrou que haverá espaço para tudo: passeio de gigante, resistência de quem cresceu, vitória de maturidade e afirmação de quem quer ser levado a sério. A nova Copa começou a mostrar sua cara.





