Irã x Nova Zelândia. O duelo dos ‘patinhos feios’ da Copa acabou sem vencedor, no empate por 2 a 2. De um lado, a seleção pior colocada no ranking da Fifa entre as 48 participantes do torneio, sem jamais ter vencido um jogo de Copa. Do outro, uma equipe transformada em símbolo involuntário das tensões geopolíticas que cercam esta Copa, com os jogos disputados nos Estados Unidos. Ainda assim, quando a bola rolou no SoFi Stadium, em Los Angeles, os dois países entregaram um espetáculo que fez justiça à grandeza do Mundial.
O empate foi daqueles jogos que, se não são um primor técnico, entregam emoção do primeiro ao último minuto. Foi um jogo aberto, franco, intenso e sem os excessos de cautela que costumam contaminar estreias. Houve quatro gols, inúmeras oportunidades criadas e uma permanente sensação de que o placar poderia mudar a qualquer instante. A Nova Zelândia esteve duas vezes à frente, mas não conseguiu sustentar a vantagem. O Irã correu atrás do resultado em ambas as ocasiões e encontrou forças para evitar uma derrota que parecia desenhada em mais de um momento da noite. O empate deixa o Grupo G embolado, com quatro equipes com um ponto ganho, já que Bélgica e Egito também empataram por 1 a 1.

Irã x Nova Zelândia lá e cá
Logo aos seis minutos, Wood recebeu um lançamento longo, protegeu a bola e serviu Just, que invadiu a área para abrir o placar. Era o retrato de uma Nova Zelândia sem complexos, disposta a desafiar a lógica. Vestida de preto, a equipe jogava com uma personalidade que lembrava o espírito competitivo dos All Blacks, a lendária seleção de rúgbi do país. Sem medo e sem sinal de inferioridade.
O Irã não demorou a reagir. Em campo, a resposta foi imediata. Os iranianos mantiveram o controle emocional da partida, seguiram atacando e encontraram o empate com Rezaeian aos 32 minutos. O primeiro tempo ainda reservaria uma bola na rede anulada por impedimento e outras boas oportunidades para os dois lados.
A etapa final manteve exatamente a mesma dinâmica. Aos nove minutos, novamente Just apareceu para recolocar a Nova Zelândia em vantagem após mais uma jogada construída ao lado de Wood. O atacante entrou para a história como o primeiro jogador neozelandês a marcar dois gols em uma partida de Copa do Mundo, um feito que, por si só, já garantiria seu lugar na memória do futebol do país.
Mas o Irã não estava disposto a deixar Los Angeles de mãos vazias. Aos 18 minutos, Mohebi subiu mais alto que a defesa adversária para completar o cruzamento preciso de Rezaeian e decretar o empate definitivo. Até o apito final, as duas seleções seguiram buscando a vitória, recusando-se a aceitar o conforto de um resultado que já parecia razoável para ambas.
Futebol ensina caminho da paz
O que aconteceu dentro das quatro linhas, porém, foi apenas parte da história. Poucas seleções chegaram ao Mundial cercadas por tantas incertezas quanto o Irã. A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e o regime iraniano colocou em dúvida até mesmo a presença da equipe na competição. A delegação precisou transferir sua base para Tijuana, no México, diante das dificuldades relacionadas à entrada em território americano. Durante semanas, os iranianos viveram uma rotina que nenhum outro participante da Copa precisou enfrentar.
Por isso, cada partida da seleção persa carrega um significado que vai além do futebol. O empate desta segunda-feira foi também uma demonstração de resistência esportiva diante de circunstâncias extraordinárias. Em vez de se apresentar abatido pelas turbulências dos últimos meses, o Irã mostrou competitividade, personalidade e capacidade para responder dentro de campo.

O ambiente em Los Angeles ajudou a transformar a noite em algo ainda mais singular. A cidade abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã e vive uma relação complexa com o país de origem. Horas antes da partida, protestos tomaram as imediações do estádio. Muitos manifestantes exibiam a bandeira do Leão e do Sol, símbolo nacional anterior à Revolução Islâmica de 1979 e hoje associado à oposição ao regime de Teerã. O tema político atravessava corredores, arquibancadas e conversas, tornando impossível separar completamente o jogo do contexto que o cercava.
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Talvez por isso o empate tenha deixado uma impressão tão positiva. Em uma noite marcada por divisões, tensões diplomáticas e feridas ainda abertas, Irã e Nova Zelândia ofereceram exatamente aquilo que o futebol tem de melhor: emoção em cada disputa de bola e a busca incessante do gol.





