O Grupo H da Copa do Mundo começou como poucos imaginavam. Campeões mundiais, Espanha e Uruguai, os dois favoritos naturais da chave, entraram em campo no primeiro dia de disputa do grupo, dominaram, pressionaram, finalizaram muito mais e terminaram com a mesma frustração: pararam em goleiros inspirados. Primeiro foi a Espanha, travada pelo goleiro Vozinha no empate sem gols contra Cabo Verde. Depois foi o Uruguai, que saiu atrás, buscou o empate, por 1 a 1, empurrou a Arábia Saudita para dentro da própria área e viu a virada morrer nas mãos de Mohammed Al-Owais.
A igualdade entre sauditas e uruguaios, no Hard Rock Stadium, em Miami, não foi apenas mais um empate de primeira rodada. Foi o resultado que deixou todos os times do grupo com um ponto, sem vantagem para ninguém e com uma sensação clara de alerta para os favoritos. Em uma chave que parecia desenhada para Espanha e Uruguai largarem na frente, quem saiu fortalecido foram Cabo Verde e Arábia Saudita. Não necessariamente pela superioridade técnica, mas pela capacidade de resistir, sobreviver e transformar seus goleiros em personagens centrais da Copa.

Zebra saudita
A história do jogo do Uruguai passa obrigatoriamente por Al-Owais. Foram nove defesas, segundo as estatísticas sites especializados, o maior número de intervenções até aqui na Copa. A atuação que explica por que a reação uruguaia parou no empate. O goleiro da Arábia Saudita viveu uma noite de resistência. Errou? Também. Teve participação no gol de Maxi Araújo, ao rebater uma cabeçada para dentro da área. Mas foi justamente depois disso que cresceu ainda mais. Como acontece com goleiros em grandes noites de Mundial, sua partida não foi perfeita. Foi decisiva.
A Arábia Saudita entrou em campo com a memória recente de quem já sabe o que é assustar um gigante sul-americano em Copa. Em 2022, no Catar, havia derrubado a Argentina de Messi na estreia. Quatro anos depois, diante de um Uruguai renovado, intenso e comandado por Marcelo Bielsa, a missão era diferente, mas a lógica não mudava tanto: competir, suportar os momentos de pressão e tentar transformar uma bola parada ou uma transição em vantagem real.
No primeiro tempo, conseguiu mais do que sobreviver. O Uruguai começou lento, previsível e pouco agressivo. A equipe tinha nomes para mandar no jogo, mas demorou a encontrar ritmo. Federico Valverde ficou preso demais a uma zona em que influenciava pouco. Darwin Núñez não conseguiu se impor. A posse uruguaia, quando aparecia, circulava sem profundidade. Faltava aceleração, aproximação, presença e aquela sensação de sufoco que os times de Bielsa costumam produzir quando conseguem instalar o jogo no campo adversário.
A Arábia Saudita percebeu a hesitação e competiu bem. Não precisou controlar a bola por longos períodos para incomodar. Foi organizada, fechou espaços e, quando teve a oportunidade, aproveitou. Aos 41 minutos, em cobrança de escanteio, a bola ficou viva dentro da área. Fernando Muslera não conseguiu resolver a jogada de primeira, e Abdulelah Al-Amri apareceu para empurrar para o gol. O 1 a 0 não era um acidente completo. Era o prêmio de uma seleção que havia entendido melhor o jogo até ali.
Uruguai, enfim, aparece
Bielsa mexeu no intervalo, e a mudança mais importante foi territorial. O Uruguai voltou mais agressivo, mais alto e mais lógico. Valverde passou a aparecer por dentro, onde consegue pensar, acelerar, bater de média distância e organizar a pressão. A partir daí, a partida virou outra. A Arábia Saudita, que no primeiro tempo ainda encontrava respiro para sair, passou a defender cada vez mais perto da própria área. O campo inclinou.
O segundo tempo uruguaio teve volume, energia e urgência. A bola começou a chegar com mais frequência à área saudita. Vieram cruzamentos, rebotes, chutes de fora, escanteios e finalizações bloqueadas. Federico Viñas entrou mais no jogo. Maxi Araújo ganhou presença. Valverde passou a ditar o ritmo. Manuel Ugarte acertou a trave em um chute rasteiro. A cada ataque, aumentava a sensação de que o empate era questão de tempo. A cada defesa, crescia Al-Owais.
O empate saiu aos 35 minutos, e até ele carregou a assinatura contraditória do goleiro saudita. Em cruzamento pela esquerda, Viñas cabeceou firme. Al-Owais rebateu para uma zona perigosa, e Maxi Araújo aproveitou. O uruguaio controlou bem e finalizou para fazer 1 a 1. Era o gol que a Celeste já merecia pela pressão do segundo tempo. Mas não era o fim da história. O Uruguai não comemorou como quem havia resolvido o problema. Recolocou a bola em jogo como quem sabia que a virada estava ao alcance.

Paredão saudita
Foi aí que Al-Owais deixou de ser apenas importante e virou o personagem da noite. Nos minutos finais, a Arábia Saudita já não tinha o mesmo fôlego para sair. O empate parecia provisório. A virada uruguaia rondava o estádio. Nos acréscimos, o goleiro saudita espalmou uma finalização de Nicolás de la Cruz e, na sequência, fez a intervenção mais simbólica da partida: buscou no canto um chute rasteiro de Valverde, daqueles que costumam atravessar a multidão e morrer junto à trave. A manchete poderia ser do uruguaio. Virou do goleiro.
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O apito final consolidou uma imagem forte para o Grupo H. A Espanha parou em Vozinha. O Uruguai parou em Al-Owais. Cabo Verde e Arábia Saudita, duas seleções que entraram como candidatas a incomodar, saíram da primeira rodada vivas, pontuando e obrigando os favoritos a jogarem a segunda rodada com pressão extra. Com todos empatados, a margem de erro diminui. Espanha e Uruguai continuam favoritos, mas já não têm o conforto do roteiro esperado.





