A Inglaterra começou a Copa do Mundo como se costuma exigir de uma seleção candidata ao título: sofrendo, reagindo, machucando o adversário nos momentos certos e encontrando no seu capitão a tradução mais completa de uma equipe que quer ser mais do que uma coleção de bons jogadores. Na vitória por 4 a 2 sobre a Croácia, nesta quarta-feira, Harry Kane, de 32 anos, foi artilheiro, referência, meia-armador, primeiro defensor e, no fim, até bombeiro de uma defesa que ainda mostrou frestas perigosas.
Foi Kane, esse camisa 9 de múltiplas funções, quem deu sentido à estreia inglesa. Não apenas pelos dois gols, embora eles já fossem suficientes para colocá-lo no páreo da artilharia da Copa e recolocá-lo na perseguição a marcas pessoais importantes. O que impressionou foi a dimensão da atuação. Kane não jogou como centroavante preso entre os zagueiros. Jogou como ponto de partida e ponto de chegada. Jogou como quem finaliza a jogada e, quando ela nasce torta, volta para corrigir o caminho.

Harry Kane no páreo dos artilheiros
A história do placar ajuda a explicar a montanha-russa da partida. A Inglaterra saiu na frente aos 12 minutos, com Harry Kane convertendo a segunda cobrança de pênalti. Na primeira, o goleiro Dominik Livakovic, que evitou uma goleada histórica, salvou, mas se adiantou mais do que devia. A Croácia respondeu aos 36 minutos, com Martin Baturina, recolocando no jogo uma seleção que conhece como poucos os atalhos emocionais de uma Copa.
Em uma partida frenética, aos 42 minutos, Harry Kane apareceu de novo. Solto na área, aproveitou a cobrança do escanteio de Declan Rice, cabeceou firme e recolocou os ingleses em vantagem. Mas, antes do intervalo, aos 50 minutos, Petar Musa empatou para os croatas e levou o jogo para o vestiário com cara de armadilha: 2 a 2, quatro gols, dois empates e a sensação de que qualquer erro poderia mudar a estreia de ingleses e croatas.
Inglaterra intensa até o fim
Foi aí que a Inglaterra mostrou força de equipe grande. Logo aos dois minutos, em uma ótima troca de passes pela direita, Jude Bellingham arrancou para a grande área e fez o terceiro gol, que devolveu aos ingleses o controle emocional do jogo. Era para ser uma vitória mais elástica, mas os ingleses, ora pararam nas defesas de Livakovic, ora não acertaram o alvo.
Com as mexidas de ambos os lados, o frescor de quem veio do banco foi melhor para a Inglaterra. Aos 40 minutos, na arrancada de Saka pela direita, a bola chegou em Marcus Rashford, que invadiu a área, deixou fácil o marcador e finalizou sem chances para Livakovic. A vitória inglesa ganha peso. Não foi um triunfo protocolar contra um adversário menor. Foi um jogo grande, contra uma seleção habituada a sobreviver em noites difíceis e a incomodar gigantes. Aos croatas, o recado é que não podem dar tanta bobeira na marcação.
De volta ao personagem da partida, reduzir Harry Kane aos gols seria contar só metade da história. A parte mais interessante da sua atuação esteve longe da área. Sempre que a Croácia fechava o corredor central e obrigava a Inglaterra a pensar mais, Kane recuava. Recebia de costas, atraía o marcador, protegia a bola e distribuía com a calma de um meia. Em alguns momentos, foi ele quem organizou o ritmo. Em outros, foi ele quem acelerou o passe para encontrar os pontas. A Inglaterra ganhou um centroavante e um armador no mesmo corpo.
Exemplo de dedicação
A imagem que melhor explica sua noite, porém, talvez nem tenha sido ofensiva. Nos acréscimos, aos 50 minutos da etapa final, com a Croácia tentando transformar o último empurrão em drama, Harry Kane apareceu na defesa para bloquear uma finalização de Gvardiol quase em cima da linha. Foi o gesto de um capitão que não se contenta em decidir no ataque. Ele também se doa sem a bola, fecha espaço, baixa a linha, disputa a segunda bola e ajuda a proteger uma vantagem que, em Copa do Mundo, vale quase tanto quanto o brilho individual.
Além disso, depois do que ocorreu com os dois gols de Mbappé e Haaland e os três de Messi, o atacante manda o recado e avisa que também está no páreo pela artilharia desta Copa do Mundo.

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Portanto, a Inglaterra venceu por 4 a 2, somou três pontos e estreou com autoridade. Mas a notícia principal não está apenas no placar. Está na forma como venceu. Uma estreia de candidato, com o seu capitão que jogou como se carregasse várias funções ao mesmo tempo. Harry Kane foi centroavante, armador, volante auxiliar, zagueiro de emergência e símbolo de uma Inglaterra que quer transformar promessa em conquista. Um multi-homem que faz a diferença em jogos de Copa.




