Primeiro país classificado ao mata-mata, o caminho do México rumo à vaga 16 avos começou como uma história de controle, tensão e paciência e terminou como uma história de goleiros. De um lado, Kim Seung-Gyu, personagem involuntário do lance que abriu caminho para a vitória mexicana. Do outro, Raúl Rangel, herói tardio de uma noite em que o anfitrião precisou sofrer para transformar o 1 a 0 sobre a Coreia do Sul na primeira vaga garantida no mata-mata da Copa do Mundo.
Foi uma classificação em dois atos. O primeiro veio logo no início do segundo tempo, quando a partida ainda parecia presa a um roteiro de equilíbrio excessivo. O México tinha a obrigação emocional de propor, por jogar em casa, diante de uma torcida que empurrava, cobrava e esperava. A Coreia do Sul, vencedora na estreia, não parecia disposta a se expor. O empate não era um desastre para ninguém. Por isso, o primeiro tempo foi mais de cautela do que de brilho, mais de disputa por território do que de inspiração.

México aproveita lambança
Então apareceu o erro. Aos cinco minutos, a bola veio para a área coreana. Kim Seung-Gyu saiu para tentar resolver uma jogada aparentemente administrável. Só que o goleiro não conseguiu segurar e se chocou com o zagueiro Lee Gi-Hyuk. A bola escapou, o lance virou confusão, e Luis Romo apareceu no lugar certo, no tempo certo, para mandar para a rede. O gol mexicano nasceu menos de uma construção espetacular e mais daquilo que também decide Copa do Mundo: pressão, presença na área e aproveitamento imediato da falha adversária.
A partir dali, o jogo mudou de dono, mas não necessariamente de ritmo. A Coreia teve de sair da posição confortável e buscar o empate. O México, por sua vez, recuou alguns metros, aceitou defender mais baixo e passou a jogar com a vantagem que tanto havia buscado. Foi uma escolha pragmática, até conservadora, mas compreensível. Em Copa, especialmente para um anfitrião pressionado pelo peso da camisa e pelo trauma recente de eliminações precoces, a beleza muitas vezes fica atrás da sobrevivência.
Defesas valeram a vaga
Perto do fim, quando o 1 a 0 parecia controlado, a Coreia encontrou a chance que procurou durante quase todo o segundo tempo. Cho Gue-sung apareceu na área para finalizar de cabeça. Era o lance do empate. Era o tipo de bola que muda uma tabela, silencia um estádio e transforma uma vitória quase pronta em problema. Raúl Rangel, porém, sustentou o México. Primeiro, ficou de pé o suficiente para defender com o pé. Depois, já no chão, reagiu outra vez para impedir que o rebote virasse gol.
Foram segundos que valeram uma classificação. Rangel não fez apenas uma defesa bonita. Ele defendeu o sentido da noite mexicana. Defendeu os seis pontos e a liderança do Grupo A. Defendeu também a aposta de Javier Aguirre em mantê-lo como titular, mesmo com a sombra histórica de Guillermo Ochoa, personagem de tantas Copas, sempre pairando sobre a meta mexicana. Numa seleção acostumada a viver com fantasmas, Rangel ofereceu o presente.

Matemática da classificação
Com duas vitórias em dois jogos, três gols marcados e nenhum sofrido, o México não depende mais de combinação. Mesmo que perca para a República Tcheca na última rodada, não pode mais sair das duas primeiras posições do grupo. A Coreia ainda pode alcançar os mesmos seis pontos. Tchéquia e África do Sul, não. A matemática, portanto, confirma o que o estádio sentiu ao apito final: o México é o primeiro classificado desta Copa.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Mas a classificação não veio como uma goleada, nem como demonstração exuberante de força ofensiva. Veio com a cara das Copas: um erro capital de um goleiro, um gol de oportunismo, minutos de resistência e duas defesas que impediram a festa adversária. Entre a falha de Kim Seung-Gyu e o milagre de Raúl Rangel, o México encontrou a linha que separa ansiedade de alívio. E, pela primeira vez neste Mundial, alguém já pode olhar para o mata-mata.





