O futebol costuma empurrar seus ídolos para fora do campo antes que eles aceitem o fim da carreira. A idade pesa e costuma “condenar” atletas. Alguns entendem o recado, param quando possível (financeiramente) e preservam a imagem. Outros preferem seguir e desafiar a lógica. Jogam onde ainda há contratos, bola, vestiário, salário razoável, rotina e a ilusão aceitável de que a carreira ainda pode durar um pouco mais.
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É nesse grupo que aparecem nomes como Nani, Juan Mata, Mario Balotelli e Ralf, volante do Corinthians de muitas histórias e conquistas. Todos tiveram seus momentos no futebol. Todos ganharam títulos importantes e destaques na mídia. Eles já foram protagonistas ou peças relevantes em equipes gigantes. Hoje, porém, seguem longe dos holofotes que um dia iluminaram suas carreiras. Mas seguem.

Nani talvez seja o exemplo mais curioso entre eles. Companheiro de Cristiano Ronaldo por mais de uma década na seleção de Portugal, o ponta viveu grande fase no Manchester United, do lendário Alex Ferguson. Ganhou a Champions League, passou pelo Sporting e esteve no título inédito português da Eurocopa de 2016. Naquela competição, Nani foi o artilheiro da equipe ao lado de Cristiano. Aos 39 anos, depois de anunciar a sua aposentadoria e rodar por ligas menores, ele voltou ao futebol para defender o Aktobe, do Cazaquistão. E é feliz.
Ao lado de Cristiano Ronaldo
É uma queda de palco e de cenário, mas não necessariamente de dignidade. Jogadores como Nani sabem que o auge não volta mais. Ainda assim, preferem o campo ao sofá de casa. Não se importam de atuar em um campeonato distante, com uma camisa menos conhecida e estádios menores a encerrar a rotina que moldou suas vidas desde a infância, provavelmente desde os 10 anos ou antes disso.
Uma vez Diego Maradona disse, já como técnico, que sentia saudades de arrumar suas chuteiras para um jogo. Paulo Roberto Falcão, o rei de Roma, formado no Inter e meio-campista do Brasil na Copa do Mundo de 1982, disse que o jogador morre duas vezes: quando a vida, de fato, chega ao fim e quando para de jogar. Para quem jogou no topo, o silêncio da aposentadoria pode ser mais duro do que uma liga periférica.

Juan Mata também saiu do eixo principal do futebol. Campeão do mundo com a Espanha em 2010, da Eurocopa em 2012 e peça fundamental do Chelsea que conquistou a Champions League, o meia construiu uma carreira longa na elite europeia. Passou por Valencia, Chelsea, Manchester United e Galatasaray antes de embarcar para a Ásia e Oceania. Neste ano, segue ligado ao Melbourne Victory, da Austrália, onde também se tornou acionista do clube.
Balotelli está de volta
Mata é outro tipo de veterano da bola. Menos barulhento, mais cerebral, ele é quase professor dentro de campo. Já não vive da explosão física, mas da leitura, do passe certo e da experiência. Para clubes fora do centro europeu, esse tipo de jogador entrega mais do que futebol. Entrega marca, vestiário, referência e alguma memória de tempos gloriosos para contar aos mais novos.
Mario Balotelli é o caso mais midiático e mais imprevisível dessa turma. Contratado ainda adolescente pela Inter de Milão, campeão, personagem da seleção italiana, estrela da Euro de 2012 e vencedor do Golden Boy, o atacante nunca conseguiu estabilizar uma carreira compatível com o seu talento. Passou por clubes gigantes, mas irritou muitos treinadores sem deixar de ser aplaudido pelos torcedores. Mas acumulou polêmicas nos quatro cantos do planeta e seguiu mudando de clube como se troca de roupa. Na temporada passada, depois de meses sem jogar, Balotelli assinou com o Al-Ittifaq, dos Emirados Árabes Unidos. Ele tem 35 anos.

Balotelli é quase um gênero próprio no futebol. Não se trata apenas de desempenho. Trata-se de personagem. Em campo, ainda carrega nome, força e alguma capacidade de decidir jogos. Fora dele, continua atraindo curiosidade. Talvez por isso siga contratado. Ele chama atenção só de acordar para treinar. Talvez por isso também siga tentando. Poucos jogadores foram tão discutidos por aquilo que poderiam ter sido quanto Balotelli. Ele sempre esteve abaixo do potencial que mostrou desde cedo.
Ralf estava no Guarani
No Brasil, Ralf representa outra forma de resistência. Ídolo do Corinthians, campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes em 2012, volante de marcação dura e leitura simples do jogo, ele seguiu na ativa muito depois de deixar o Parque São Jorge. Passou por Avaí, Cianorte, Vila Nova e Guarani, mantendo a carreira em movimento mesmo longe do palco em que virou herói corintiano. O cara foi campeão mundial no Japão diante do Chelsea. Não é pouca coisa. Ele nunca quis parar. E lutou para que o futebol não o aposentasse antes da hora.
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Ralf nunca foi jogador de manchete fácil nem craque. Era o oposto disso tudo. Fazia o trabalho “sujo”, protegia a defesa, roubava bola e permitia que outros brilhassem na partida. Era chamado de “cão de guarda”. Talvez por isso sua longevidade combine com a própria carreira. Sem glamour, sem excesso, sem pedir licença. Ele entrava em campo e sabia exatamente o que tinha de fazer. Ele continua na ativa correndo atrás dos atacantes. Deixou o Guarani recentemente após sete meses de contrato. Mas não pendurou as chuteiras. Está em busca de algum clube para jogar aos 42 anos.
Essas histórias mostram que o fim de carreira raramente é romântico como o torcedor imagina. Nem todo craque se despede em estádio lotado, com placa, volta olímpica, aplausos do torcedor e lágrimas. Muitos desaparecem aos poucos, em clubes pequenos, ligas distantes e notícias curtas de mercado. O futebol, que dá fama cedo, também cobra esquecimento com rapidez. Esses atletas vão se derretendo até desaparecer. Ainda assim, há beleza nessa insistência. Nani no Cazaquistão, Mata na Austrália, Balotelli nos Emirados e Ralf rodando pelo Brasil lembram que jogador de futebol, antes de ser ídolo, é alguém que não sabe viver longe do jogo.





