“Ka ten más bobo na futebol”. O velho chavão utilizado no Brasil para justificar aqueles resultados improváveis em duelos entre gigantes e equipes consideradas inferiores — “não tem mais bobo no futebol” — cai perfeitamente em uma versão adaptada ao idioma crioulo cabo-verdiano. Afinal, a seleção do pequeno país africano deu mais uma demonstração de que foi à Copa do Mundo disposta a subverter a lógica da bola e inscrever seu nome na história da maior competição do planeta.
Apesar de ser estreante no torneio e uma das seleções de pior colocação no ranking da Fifa, Cabo Verde já havia parado um campeão mundial na estreia, na noite em que o mundo foi apresentado ao goleiro Vozinha, de 40 anos, responsável direto pelo histórico empate sem gols com a poderosa Espanha. E não é que a equipe repetiu a façanha neste domingo! Com raça, amor à camisa, humildade e muito empenho, Vozinha e companhia seguraram o bicampeão mundial Uruguai em um heroico empate por 2 a 2, num jogo sensacional, aberto, repleto de oportunidades para os dois lados e decidido apenas nos detalhes, em Miami. Com direito a final dramático, eletrizante e cheio de chances de gol para para qualquer lado.

Com o resultado, Cabo Verde chega à terceira rodada contra a Arábia Saudita com chances reais de classificação para o primeiro mata-mata — algo que parecia impensável antes do início da competição. Já o Uruguai, apontado como um dos favoritos do Grupo G, continua pressionado e terá a indigesta missão de derrotar a Espanha para seguir vivo no Mundial. Nas tribunas do estádio, o velho ídolo Luisito Suárez parecia não acreditar no que via. Nem ele nem nenhum outro uruguaio.
Cabo Verde marca primeiro
O empate teve ainda mais valor porque nasceu diante de um adversário que, desde os primeiros minutos, assumiu o controle da posse de bola. A Celeste rondava a área africana, mas encontrava enormes dificuldades para superar a disciplina tática montada por Bubista. Cabo Verde defendia com linhas compactas e aguardava pacientemente uma oportunidade para atacar.
Ela apareceu aos 20 minutos — e entrou imediatamente para a história. Kevin Pina cobrou uma falta da intermediária com extrema categoria, surpreendeu Muslera e colocou a bola no canto do goleiro uruguaio. Ela passou entre os dois jogadores da barreira. Era o primeiro gol de Cabo Verde em Copas do Mundo, um momento que ficará eternizado na memória do país africano. O gol aumentou a confiança dos “Tubarões Azuis” e obrigou o Uruguai a acelerar o jogo. A equipe de Marcelo Bielsa passou a explorar com insistência os cruzamentos para a área. A estratégia acabou funcionando já na reta final da primeira etapa.

Aos 43 minutos, Sanabria iniciou a jogada pela esquerda e encontrou Federico Valverde. O craque do time cruzou na medida para Ugarte, que ganhou pelo alto. Atento ao rebote, Maxi Araújo apareceu livre para empatar. Pouco depois, já nos acréscimos, veio a virada. Ugarte levantou outra bola precisa para a área, Maxi Araújo escorou de cabeça e Canobbio apareceu livre apenas para completar para as redes. Em poucos minutos, o favoritismo uruguaio parecia finalmente ter prevalecido.
Vozinha quase entrega no fim
A reação da Celeste, entretanto, teve um episódio que gerou críticas. No início da jogada do primeiro gol uruguaio, o atacante Viñas ignorou Telmo Arcanjo, que permanecia caído no gramado reclamando de fortes câimbras, e deu sequência ao lance que culminaria no empate. Na volta do intervalo, o Uruguai manteve o controle da partida e parecia caminhar para uma vitória sem maiores sobressaltos. Até que o futebol resolveu lembrar, mais uma vez, por que é o esporte mais imprevisível do planeta.
Aos 15 minutos, uma simples cobrança de lateral transformou-se em um desastre para a defesa sul-americana. Mathías Olivera recebeu a bola, tentou o recuo e entregou nos pés de Hélio Varela. Muslera saiu desesperadamente da área tentando corrigir o erro, mas acabou facilitando ainda mais a vida do atacante cabo-verdiano, que limpou o goleiro e empurrou para o gol vazio. Olivera permaneceu alguns segundos paralisado, em estado de choque, tentando entender o tamanho da falha que acabara de cometer.
O empate incendiou as arquibancadas de Miami. O sonho cabo-verdiano ganhava mais um capítulo improvável. Mas o roteiro ainda reservava um último susto. Minutos depois do empate, o herói da estreia quase virou personagem trágico. Em uma cobrança curta de escanteio, a bola permaneceu viva na pequena área. Vozinha tentou fazer a defesa, mas soltou a bola nos pés de Maxi Araújo, que marcou aquele que seria o terceiro gol uruguaio. Enquanto os jogadores celestes comemoravam, o árbitro foi alertado pelo VAR de que havia alguma coisa errada. A revisão confirmou o impedimento no lance, anulando o gol e devolvendo o alívio aos africanos.
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O apito final foi recebido como uma vitória por Cabo Verde. Não apenas pelo ponto conquistado, mas pela confirmação de que sua campanha está longe de ser apenas uma história simpática. Em duas rodadas, a estreante já parou dois campeões mundiais, segue invicta e chega à última rodada dependendo apenas de si para transformar um sonho improvável em uma classificação histórica. Para os uruguaios, só restou um chavão em forma de lamento: “Ya no quedan tontos en el fútbol”.





