Nova York – Neymar será relacionado pela primeira vez nesta Copa do Mundo. Recuperado da lesão na panturrilha direita, o camisa 10 fez três treinos no campo com os companheiros da seleção e ganhou condição para ajudar o Brasil contra a Escócia, nesta quarta-feira, em Miami. A pergunta, agora, não é apenas se ele vai jogar. Mas qual Neymar o Brasil verá em sua quarta Copa do Mundo.

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O jogo vale muito. O Brasil disputa a liderança do grupo e também a permanência em Morristown, New Jersey, região de Nova York, onde montou sua base nos Estados Unidos. Terminar em primeiro facilita a logística, a recuperação e a preparação para o primeiro mata-mata. Neymar entra nesse cenário como novidade, mas não mais como dono absoluto do time, como nas Copas anteriores. Pela primeira vez em Copas, ele volta como peça em observação. É reserva. A torcida vai pedir a sua entrada e Ancelotti vai atender aos pedidos, mas somente no segundo tempo.

Os passos de Neymar: atacante vai a campo na Granja Comary e acompanha treino da seleção brasileira / CBF

Contra o Marrocos, Neymar esteve com a delegação no banco de reservas, mas de boné e tênis. Participou do rito do jogo, da preleção, ouviu o hino, viveu o ambiente da competição, mas sabia que não entraria em campo. Contra o Haiti, na Filadélfia, ele nem viajou. Ficou no hotel em Morristown para intensificar o tratamento. O jogo contra a Escócia será, portanto, o primeiro em que Neymar estará à disposição de Ancelotti. Vai ser a sua oficialização no quarto Mundial, como Pelé.

Neymar vai estrear na Copa

Ele começa no banco e pode atuar nos minutos finais em Miami, onde o calor tem sido intenso. Mesmo se não entrar em campo, completará sua quarta participação em Mundiais porque foi relacionado. Aos 34 anos, já avisou que esta será sua última Copa. Neymar fracassou com o Brasil nas três primeiras tentativas, cada uma marcada por um tipo de dor: a pancada nas costas em 2014, a cobrança pública e os memes em 2018, a lesão no tornozelo e a queda nos pênaltis em 2022.

Ele chega nesta edição pela porta dos fundos em outra condição. Ou sem condição. Faz 38 dias que Neymar não disputa uma partida de futebol. Neymar ainda não deu mostras de que tipo de jogador será nesta Copa. Nem para o torcedor brasileiro nem para Ancelotti. Neymar é um jogador de videogame. Ele já foi comandado por Felipão em 2014 e por Tite em 2018 e 2022. Agora tem a confiança de Ancelotti, o dono do Atari em que Neymar é craque. O italiano apostou nele e em sua recuperação.

Neymar treina na academia do hotel da seleção nos Estados Unidos e ainda está longe de poder ajudar o Brasil / CBF

O treinador disse que o atacante está pronto, que pode jogar 90 minutos e que treinou muito bem. Ninguém viu isso nos treinos. Neymar fez três treinos apenas. Mas Ancelotti está feliz com ele. O Brasil continua ressabiado. Danilo deu uma pista de como pensa Ancelotti sobre Neymar: “os zagueiros rivais se incomodam com ele em campo”.

Fracassos de Neymar nas Copas

A melhor Copa de Neymar foi a primeira. Em 2014, no Brasil, ele estava voando. Era o craque do time, tinha o carinho da torcida e carregava a esperança de um país que jogava em casa. Fez quatro gols em cinco partidas. Na estreia, contra a Croácia, no estádio do Corinthians, marcou duas vezes na virada por 3 a 1. Depois veio a joelhada de Zúñiga, na partida contra a Colômbia, e Neymar foi colocado para fora da Copa. Sem ele, o Brasil levou 7 a 1 da Alemanha e perdeu por 3 a 0 para a Holanda. Dez gols sofridos em duas derrotas.

Em 2018, na Rússia, Neymar viveu sua pior Copa. Havia acabado de se recuperar de uma cirurgia no pé e chegou pressionado, vigiado e sem a leveza de quatro anos antes. Reclamou muito das entradas duras, rolou em campo e virou meme mundial. Não se sabe até hoje onde terminava a dor e onde começava a tentativa de proteção. Fez dois gols e deu duas assistências, mas saiu menor do que entrou. O Brasil caiu nas quartas de final contra a Bélgica, e Neymar deixou a Copa marcado mais pelas imagens nas redes do que pelo futebol.

Screenshot

No Catar, quatro anos atrás, Neymar voltou a ser o dono do Brasil. A seleção jogava em torno dele, esperava por ele e acreditava nele. Mas a história se repetiu. Logo na estreia, contra a Sérvia, torceu o tornozelo direito e perdeu a sequência da primeira fase. Voltou contra a Coreia do Sul, marcou, participou da festa, mas não estava inteiro. Talvez sua atuação mais sóbria tenha sido contra a Croácia, quando fez um golaço na prorrogação. Não bastou. O Brasil caiu novamente nas quartas, nos pênaltis, e Neymar chorou mais uma eliminação.

Neymar terá o seu nome gritado

A quarta Copa começa para Neymar de um jeito diferente. Ele não é nem sombra daquele jogador de 2014, que acelerava, driblava e decidia como se a Copa fosse quintal. Também não pode ser o Neymar de 2018, mais preocupado em sobreviver às pancadas e ao julgamento externo. Nem o de 2022, dono do time, mas traído pelo corpo. O Neymar de 2026 é um grande ponto de interrogação. Ninguém sabe sobre a sua condição física e técnica. Ele foi chamado no apagar das luzes. Ancelotti o quer perto da área. O Brasil de Ancelotti também não depende mais dele como antes. Vini Jr. é o principal nome do ataque. Matheus Cunha ganhou moral com dois gols contra o Haiti. Endrick pede passagem. A seleção tem outras rotas, outros personagens e outra dinâmica. Neymar, se entrar, terá de se encaixar nesse time.

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Essa talvez seja a maior mudança. Neymar sempre chegou às Copas como esperança central do Brasil. Agora chega como possibilidade. Quer ajudar e talvez possa. Está de pé, ficará no banco e espera uma oportunidade. Não há mais espaço para promessas grandes demais nem para expectativa fora da realidade. Há um jogador talentoso, em sua última tentativa, tentando provar que ainda tem algo reservado para ele no Mundial. Ancelotti acredita nisso. O treinador bancou a convocação, esperou a recuperação e agora abrirá a porta para Neymar entrar na Copa. A quarta Copa de Neymar começa atrasada para ele. E talvez por isso carregue uma pergunta que nunca pareceu tão difícil: qual Neymar ainda cabe no Brasil?

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