Nova York — O Brasil entra no mata-mata da Copa do Mundo acompanhado de um velho fantasma: os pênaltis. A seleção enfrenta o Japão na segunda-feira, em Houston, e sabe que qualquer empate no tempo normal levará o jogo para a prorrogação. Se a igualdade persistir, a vaga será decidida na marca da cal. Para o Brasil, esse caminho nunca foi neutro. Já houve glória, sofrimento e eliminação.
Antes dos pênaltis, há outro problema. O tempo extra de 30 minutos, dividido em duas partes de 15, será um rival a mais para as seleções nos Estados Unidos, sobretudo. O calor, o desgaste físico, a intensidade dos jogos e o fim de uma temporada pesada na Europa aumentam o peso de cada minuto a mais em campo. No mata-mata, não basta jogar bem. É preciso sobreviver.

Esse cenário interfere diretamente nas decisões de Carlo Ancelotti. Neymar é o exemplo mais claro disso. O atacante voltou a jogar, mas ainda não tem condição de atuar por muito tempo. Imagina-se que possa suportar 30 minutos. Se entrar no segundo tempo contra o Japão, talvez não tenha pernas para ajudar em uma eventual prorrogação. O mesmo vale para atletas mais desgastados e mais velhos. O banco passa a ser tão importante quanto o time titular.
Tem ainda a prorrogação
O Brasil empatou com Marrocos na estreia da competição depois de ser dominado no primeiro tempo. Se aquele jogo fosse eliminatório, a seleção teria precisado disputar mais 30 minutos. A partir de agora, esse risco será real. Os treinadores poderão usar uma substituição extra caso a partida vá para a prorrogação. A regra da Fifa aumenta de cinco para seis o número de trocas nesses casos. É uma tentativa de reduzir o desgaste e dar aos técnicos alguma margem de manobra.
Mas o verdadeiro fantasma começa depois. Se o tempo normal e a prorrogação terminarem empatados, a vaga será decidida nos pênaltis. Cinco cobranças para cada lado e, se necessário, alternadas até que alguém vença. O Brasil já sorriu e já chorou nesse tipo de decisão. A seleção decidiu seu destino na marca da cal em quatro Copas do Mundo. Em apenas uma delas, terminou campeã. Em duas foi eliminada.
Decepção em 1986, com Sócrates
A primeira queda veio em 1986, no México, contra a França, de Michel Platini. O Brasil perdeu nos pênaltis depois dos erros de Sócrates e Júlio César. Antes disso, no tempo normal, Zico também havia desperdiçado uma cobrança defendida pelo goleiro Bats. Foi uma das eliminações mais dolorosas da história do Brasil. Zico afirmou recentemente ter se arrependido de jogar aquele Mundial sem condições físicas e clínicas adequadas por causa de lesões no joelho.

O outro lado da moeda veio em 1994. Pela primeira vez, uma final de Copa foi decidida nos pênaltis. Brasil e Itália empataram no tempo normal e na prorrogação em Pasadena e levaram a disputa para a marca da cal. Márcio Santos errou pelo Brasil, mas os italianos erraram mais. Taffarel fez a parte dele, e Roberto Baggio mandou a bola para longe. O Brasil conquistou o tetra e transformou o drama de uma decisão nos pênaltis em glória.
Em 2014, os pênaltis quase interromperam a Copa do Brasil logo no primeiro mata-mata. A seleção de Felipão sofreu contra o Chile, em Belo Horizonte, empatou no tempo normal e na prorrogação e precisou das cobranças. Willian e Hulk erraram. Mesmo assim, o Brasil avançou porque os chilenos desperdiçaram mais. Foi uma classificação com cara de alívio, não de festa.
Fracasso no Catar nos pênaltis
No Catar, em 2022, veio a ferida mais recente. O Brasil empatou por 1 a 1 com a Croácia, depois de sair na frente na prorrogação, e caiu nos pênaltis. Rodrygo e Marquinhos erraram seus chutes. Neymar, escolhido para a quinta cobrança, nem chegou a bater. A eliminação nas quartas de final virou trauma e ainda acompanha parte do grupo atual nos Estados Unidos. Em Copa, pênalti não é detalhe. É sentença.
Se precisar dos tiros livres contra o Japão, Ancelotti terá de escolher os batedores entre os jogadores que ainda estiverem em campo. Essa é sempre uma dificuldade. A lista larga do treinador italiano deve passar por Casemiro, Bruno Guimarães, Marquinhos, Vini Jr., Paquetá, Matheus Cunha, Endrick e Neymar. Mas o pênalti não se bate apenas com currículo. Bate-se com perna, cabeça e coragem.
Alisson é treinado por Taffarel
Há também Alisson. Não para cobrar, mas para tentar defender. O goleiro será personagem central se o Brasil voltar à marca da cal. E há um detalhe simbólico: ele é treinado por Taffarel, o goleiro que ajudou a garantir o tetra em 1994. A memória pode pesar, mas também pode servir de inspiração. O Brasil chega ao mata-mata favorito contra o Japão. Tem mais história, mais talento e mais obrigação. Mas a Copa costuma cobrar caro de quem acredita demais no roteiro. A partir de agora, cada jogo pode durar 90, 120 minutos ou uma eternidade de cinco cobranças de pênaltis. Para a seleção brasileira, os pênaltis nunca foram apenas uma forma de desempate. Foram capítulos de alegria, trauma e julgamento. E o fantasma está de volta.





