Abel Ferreira poderia ter escolhido o caminho mais fácil depois do empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño: apontar a falha de Carlos Miguel no último lance, lamentar dois pontos — ou, neste caso, uma vantagem importante — desperdiçados e transferir para o goleiro boa parte da responsabilidade pelo resultado. Preferiu fazer exatamente o contrário.
O treinador reconheceu o erro, mas colocou-se à frente do jogador e transformou a resposta numa defesa pública de seu elenco. “Fosse qual fosse o resultado, tínhamos todas as condições de ganhar, mesmo com menos um. E não devíamos ter tomado aquele último gol. Mas parece que no futebol vivemos no futebol onde não há humanos. Onde há humanos, há erros. E quem errou ou falhou não há ninguém no mundo que queria acertar mais. E a responsabilidade máxima é minha.”

Abel minimiza falha
Foi provavelmente a declaração mais importante de sua entrevista coletiva. Carlos Miguel sabe que poderia ter feito melhor. Abel também sabe. E chegou a admitir isso ao analisar o lance do empate, quando o Palmeiras, mesmo com um jogador a menos, parecia ter a partida sob controle. “Os zagueiros têm que seguir o movimento do centroavante, e nosso goleiro sabe que poderia fazer melhor também. Mas quando ganhamos, todos ganhamos. E quando perdemos, temos uma infelicidade, estamos todos juntos”, ponderou o comandante.
No zona mista, onde os jornalistas ficam posicionados, próximo à saída do vestiário, o goleiro não quis dar entrevista, mas, caminhando, esbajou confiança. “Pode ficar tranquilo que nós vamos classificar.”
A resposta protege o jogador, mas não elimina o tamanho do problema. O Palmeiras deixou escapar em casa uma vitória que o colocaria em situação bastante confortável na eliminatória e agora terá de resolver sua vida no Paraguai. Abel, porém, saiu mais satisfeito com o desempenho do que preocupado com o resultado. “Acho que fizemos um belíssimo jogo. Tendo em conta o adversário e todos os agarrões que o árbitro permitiu, a expulsão foi muito rigorosa se comparar a entrada no Roque na primeira parte, que nem na bola toca.”
A arbitragem foi um dos focos de irritação do português, especialmente pela expulsão de Andreas Pereira. Para Abel, houve falta de critério na comparação com outras entradas durante a partida. Mas nem mesmo isso serviu como principal justificativa para o empate. O treinador preferiu falar de eficácia. “Futebol é isto. Tem que ser eficaz, fizemos um jogo com volume, com oportunidades. Quem tem seis ou sete oportunidades e só faz um gol na Libertadores, tem que se queixar da falta de eficácia.”
Copo meio cheio
É justamente aí que aparece a questão que acompanhará o Palmeiras até Assunção. Abel enxerga desempenho suficiente para vencer. O resultado, no entanto, mantém viva uma eliminatória contra um adversário teoricamente menos qualificado e que o Palmeiras ainda não conseguiu superar como gostaria. Na Libertadores, produzir mais não necessariamente significa controlar o destino.
O treinador sabe disso, mas recusou qualquer sinal de pessimismo. “Nós, como equipe, temos que encontrar soluções, como hoje, que não vencemos porque a eficácia não foi boa pelas oportunidades. Não foi dia, mas ele vai sair na hora certa. Calma aos jogadores, à torcida, temos mais 90 minutos no nosso adversário para atingir o objetivo que queremos.”

A confiança também aparece quando Abel compara o empate com o desempenho recente no Brasileirão. Contra o Internacional, admitiu que o time mereceu críticas. Desta vez, fez questão de separar as situações. “Contra o Internacional aceito todas as críticas. Hoje, não. Futebol é eficácia. É uma eliminatória que está em aberto. Fora somos fortíssimos, está a meio, não vou abdicar de nenhuma competição.”
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É uma mensagem para dentro e para fora. Para Carlos Miguel, significa respaldo depois de uma falha pesada. Para o elenco, a tentativa de impedir que um empate frustrante se transforme em insegurança. Para a torcida, um pedido de confiança. Mas a Libertadores não costuma oferecer muito espaço para consolo. Abel acredita que o caminho está correto. Agora terá mais 90 minutos para provar isso justamente onde o Cerro se sente mais confortável: em casa, diante de sua torcida e sabendo que conseguiu sair do Brasil com a eliminatória completamente aberta. No Paraguai, já não bastará jogar bem. O Palmeiras precisará ser eficaz — exatamente como seu treinador cobrou.





