Pelo peso da camisa, pela tradição, pelo histórico de seus seis títulos continentais, pela diversidade dos elencos, pela qualidade dos dois treinadores portugueses, Cruzeiro e Flamengo poderiam facilmente fazer a final da atual Libertadores da América. Quis o destino, no entanto, que eles se enfrentassem já no primeiro mata-mata das oitavas de final da competição. O equilíbrio de forças entre os dois clubes ajuda a explicar o empate em 1 a 1 no primeiro capítulo dessa batalha, disputado na noite desta quarta-feira, no Mineirão, em Belo Horizonte, diante de 60 mil torcedores pagantes.
Num jogo muito ajustado, de muita marcação e respeito mútuo, Cruzeiro e Flamengo deixaram a decisão da vaga em aberto para a próxima semana, no Maracanã. A despeito das reclamações do técnico Artur Jorge, principalmente depois do gol de empate rubro-negro, o placar foi justo e não pode ser colocado na conta da arbitragem argentina. O argentino Yael Falcón conduziu uma partida de muita disputa física, mas não teve participação decisiva no resultado. Os dois lances de possíveis pênaltis e a falta que deu origem do gol do Flamengo, base da fúria de Artur Jorge, são lances de interpretação. E, em todos eles, o árbitro estava muito bem colocado para tomar suas decisões com convicção, sem precisar da ajuda do VAR.

Clima de Libertadores
Havia ainda alguns ingredientes particulares nessa noite de Libertadores. Gerson e Leonardo Jardim chegaram ao Mineirão na condição de adversários dos clubes que fizeram parte de suas histórias recentes. Gerson deixou o Flamengo e hoje veste a camisa do Cruzeiro. Jardim fez o caminho inverso: saiu da Raposa para assumir o comando rubro-negro. E, no caso do treinador português, o reencontro tinha uma carga emocional ainda maior.
A torcida do Cruzeiro não perdoou Jardim. Quando deixou o clube, no ano passado, o português havia dito que não treinaria outra equipe brasileira. A promessa, porém, durou pouco. Dois meses depois, ele já estava no Flamengo. A mudança transformou o antigo comandante em alvo da arquibancada. Jardim foi vaiado, xingado e até virou personagem de notas falsas de dinheiro distribuídas pelos torcedores, nas quais aparecia com o nariz de Pinóquio.
Dentro de campo, entretanto, não havia espaço para sentimentalismo. O primeiro tempo foi de equilíbrio e poucas oportunidades no Mineirão. O Cruzeiro teve a primeira grande chance, aos seis minutos. Arroyo fez bom lançamento para Wesley, nas costas de Emerson Royal, e o atacante, de frente para o gol, tentou finalizar de peito, mas mandou para fora.
A resposta do Flamengo veio aos 20 minutos, quando Samuel Lino recebeu e bateu colocado, buscando o canto. Otávio apareceu bem para fazer a defesa. Aos 35 minutos, Arrascaeta encontrou Bruno Henrique entrando livre pela direita. O atacante bateu de primeira, e a bola passou raspando o travessão, na melhor oportunidade rubro-negra da primeira etapa. Depois disso, o jogo ficou ainda mais amarrado. Faltas, marcação cerrada, pouca liberdade para os homens de criação e muitos passes errados dos dois lados. Cruzeiro e Flamengo pareciam jogar sabendo exatamente o tamanho do risco que representaria oferecer espaços a um adversário daquele nível.
Enfim, gols
O segundo tempo foi movimentado. E começou com uma obra de arte. Um golaço do equatoriano Arroyo para o Cruzeiro, aos 7 minutos. Ele recebeu de William na ponta direita, levou a bola para dentro, deixou Samuel Lino no chão com um corte seco e, num movimento rápido, trocou o pé direito pela canhota. O atacante fez o gesto de quem cruzaria para o centro da área, mas mudou a trajetória e bateu colocado, cruzado, diretamente para o gol. A bola foi morrer no ângulo direito de Rossi.
Um golaço. Uma pintura. O Cruzeiro passou a jogar com a vantagem e o Flamengo precisou mudar. Leonardo Jardim lançou Pedro e Lucas Paquetá nos lugares de Bruno Henrique e Arrascaeta. Era o privilégio de quem tem um elenco capaz de colocar dois jogadores desse nível em campo justamente quando a partida começava a exigir mais poder de fogo. E a resposta foi imediata. Paquetá precisou de apenas um minuto e 34 segundos em campo para justificar a substituição. Aos 21 minutos, Ayrton Lucas cobrou falta para a segunda trave, Léo Ortiz subiu e cabeceou no travessão. No rebote, Paquetá apareceu no lugar certo e soltou uma bomba para empatar.

Decisão no Maracanã
Depois do empate, nenhum dos dois se atirou irresponsavelmente ao ataque. Cruzeiro e Flamengo compreenderam que ainda havia outros 90 minutos pela frente e que qualquer descontrole poderia custar caro. O placar não resolveu nada. E talvez esse seja o resultado mais adequado para um confronto que reuniu dois dos melhores e mais caros elencos do futebol brasileiro.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
O Cruzeiro terá agora de levar para o Maracanã a confiança de quem conseguiu enfrentar o Flamengo de igual para igual e ainda teve a capacidade de sair na frente. O Flamengo, por sua vez, leva para casa a tranquilidade de ter sobrevivido ao Mineirão e arrancado um empate depois de estar atrás no placar.





