No futebol, há batalhas que se ganham com 11 jogadores, um plano de jogo e alguma dose de sorte. E há jogos que se ganham como o Brasil ganhou hoje: com 11 jogadores, um plano de jogo, alguma dose de sorte e o peso de uma camisa que carrega 5 estrelas no peito. Não dá para negar que o dramático 2 a 1, de virada, da seleção brasileira contra o Japão, na tarde desta segunda-feira, em Houston, tem essa coisa que só se explica pela própria essência do futebol. Não há muito o que teorizar: uma vitória do Brasil com a cara do Brasil.

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Num jogo tenso e disputado, não foi uma vitória da técnica, embora ela tenha aparecido no segundo tempo. Não foi apenas uma vitória da estratégia, embora Carlo Ancelotti tenha vencido o duelo de ajustes no intervalo diante de um Japão disciplinado e valente. No final, a virada sacramentada por Gabriel Martinelli nos acréscimos valeu não só a classificação às oitavas de final, mas a lembrança de que o Brasil precisa ser respeitado em qualquer circunstância.

Brasil Casemiro comemora o seu gol
Após o primeiro tempo apagado, Casemiro dá a volta por cima e anota o gol de empate da seleção brasileira / CBF

Brasil leva susto

O primeiro mata-mata sempre carrega um simbolismo diferente. É o momento em que os favoritos deixam de jogar para convencer e passam a jogar para permanecer vivos. O Japão compreendeu essa dinâmica desde o apito inicial. Preparou uma partida de enorme inteligência tática, reduziu os espaços entre as linhas, congestionou a entrada da área e transformou Vinícius Júnior no alvo permanente de uma marcação dobrada. Cada movimento parecia ensaiado. Cada cobertura acontecia no tempo exato. Era um adversário que não pretendia ter a posse de bola, mas apostar num erro do adversário.

Depois de um início de jogo em que o Brasil parecia à vontade em campo, logo veio o choque de realidade. A partir dos 15 minutos, o Japão passou a ocupar melhor o campo ofensivo até encontrar a oportunidade que tanto esperava. Numa transição para o contra-ataque, Danilo errou um passe elementar no meio-campo. Sano antecipou a jogada, acelerou em direção à área sem ser incomodado por Casemiro e bateu cruzado, sem chances para Alisson. Um golpe construído em poucos segundos, que premiava uma seleção absolutamente fiel ao plano traçado pelo seu treinador.

Abalo psicológico

O gol desmontou emocionalmente o Brasil. Casemiro acumulava erros pouco comuns para um jogador de sua experiência. Lucas Paquetá também fazia uma partida irregular. A circulação da bola tornou-se lenta, previsível, incapaz de desmontar a linha de cinco defensores montada pelo Japão. Vinícius Júnior recebia sempre cercado por dois ou três japoneses. Os cruzamentos não encontravam destino. O pentacampeão terminava o primeiro tempo sem produzir o futebol que sua camisa costuma exigir em noites decisivas.

Foi justamente aí que apareceu Carlo Ancelotti. O italiano resistiu ao caminho mais fácil. Com Paquetá lesionado, lançou Endrick para dar mais mobilidade ao ataque, mas recusou a tentação de sacrificar Casemiro, mesmo depois de um primeiro tempo muito abaixo do esperado de seu capitão. Ancelotti confiou e foi recompensado por isso.

Pressão total

O Brasil voltou diferente para a segunda etapa. Mais agressivo sem a bola, mais paciente com ela e muito mais consciente de que precisaria desmontar o bloqueio japonês movendo a defesa de um lado para outro, até abrir a brecha que antes não existia. As chances começaram a surgir em sequência. Bruno Guimarães obrigou Suzuki a fazer grande defesa de cabeça. Logo depois, Tomiyasu salvou, praticamente sobre a linha, outra finalização de Casemiro. O empate amadurecia.

Aos nove minutos, ele chegou. Vinícius Júnior iniciou a construção, Gabriel Magalhães levantou na medida e Casemiro apareceu na área para cabecear firme, vencendo Suzuki e devolvendo ao Brasil aquilo que lhe faltara durante toda a primeira etapa: confiança. O gol mudou completamente a partida. O Japão continuou organizado, mas já não conseguia respirar. O Brasil passou a empurrar o adversário para dentro da própria área, rodando a bola com paciência, sem ansiedade, até encontrar novos espaços. Era uma seleção que jogava com autoridade, sem confundir pressa com velocidade.

Brasil Gabriel Martinelli corre para comemorar o seu gol da classificação
Após passe de Bruno Guimarães (fundo), Gabriel Martinelli é cirúrgico na finalização e decreta a virada do Brasil / CBF

Prêmio à insistência

Pouco depois, Vinícius Júnior quase produziu uma obra-prima. Aplicou uma caneta desconcertante na marcação japonesa, desmontou toda a defesa e bateu de biquinho. Suzuki apenas tocou na bola antes de ela beijar a trave. A virada parecia inevitável. Até que Ancelotti voltou a apostar em Gabriel Martinelli, que saiu do banco para virar o herói da virada.

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O relógio já caminhava para os 50 minutos quando Bruno Guimarães enxergou a infiltração do companheiro e entregou um passe perfeito. Martinelli dominou com tranquilidade e bateu cruzado, no canto. O Brasil podia enfim soltar um grito de alívio. A Copa do Mundo costuma reservar uma noite de sofrimento para todo campeão. Talvez Houston tenha sido a do Brasil. E tomara que daqui pra frente a camisa amarela de 5 estrelas e tanta história siga fazendo a diferença como fez hoje. O torcedor brasileiro agradece!

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