O futebol brasileiro entrou em uma nova era. A partir deste ano, gastar mais do que arrecada deixou de ser apenas um problema do presidente, do conselho ou do departamento financeiro de um clube. Agora existe uma agência para fiscalizar as contas, cobrar explicações e, em determinados casos, punir quem não conseguir colocar a casa em ordem. O Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) da CBF, conhecido como Fair Play Financeiro, começou a funcionar em 1º de janeiro e promete mexer onde o futebol brasileiro mais dói e menos se preparou: salários, contratações, dívidas e planejamento.
O tamanho do problema pode ser medido por um estudo da BDO divulgado em maio. Com base nos balanços de 2024, a consultoria apontou que 70% dos clubes da Série A não cumpririam integralmente os critérios analisados pelo novo sistema. Apenas Flamengo e Grêmio apareceram como exceções nos três pilares financeiros avaliados no levantamento. O estudo também apontou que 35% dos clubes brasileiros tinham custos de elenco acima de 70% das receitas, o que passa a ser vetado. É uma fotografia anterior à implantação plena do sistema, mas serve como alerta do tamanho da mudança que os clubes terão de fazer.

A primeira cobrança já aconteceu
A CBF não criou apenas uma regra. Criou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para fiscalizar os clubes. A agência acompanha quatro pontos principais: dívidas em atraso, equilíbrio operacional, custo do elenco e endividamento de curto prazo. De modo que os clubes das Séries A e B precisam informar sua situação financeira em alguns momentos da temporada: 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro. Além disso, as demonstrações financeiras anuais devem ser entregues até 30 de abril, acompanhadas de auditoria externa. O orçamento do exercício seguinte precisa ser apresentado até 15 de dezembro.
Portanto, não é mais possível esconder a dívida embaixo do tapete. A própria CBF prevê que jogadores, funcionários e clubes credores possam denunciar atrasos à ANRESF. O sistema também utiliza o registro das transferências para acompanhar as obrigações financeiras. Há um cruzamento de informações como o Imposto de Renda no país. Não vai haver brechas para os maus pagadores no futebol.
Mas o que acontece com quem deve?
Aqui está uma das partes mais importantes da nova determinação da CBF. Dívidas contraídas antes de 2026 têm prazo de adaptação até 30 de novembro deste ano. Durante esse período, a regra prevê tratamento de transição, com advertências aos clubes. Um alerta para não repetir de ano. Já as obrigações assumidas a partir de 1º de janeiro de 2026 entram imediatamente no novo regime. Ou seja: quem continuar criando dívida nova e não pagando pode ser punido sem esperar o fim da transição.

É aí que alguns clubes brasileiros precisam tomar muito cuidado. A farra do dinheiro fácil e das compras muitas vezes sem dinheiro tendem a desaparecer. Não adianta negociar um jogador hoje, prometer o pagamento para amanhã e repetir a velha fórmula de empurrar parcelas para frente e não pagar. O Corinthians vive esse problema com Memphis Depay, cuja dívida do clube com o jogador é de R$ 77 milhões. O novo sistema foi criado para impedir que o clube monte um elenco com dinheiro que não tem e deixe a conta para a próxima administração.
O limite do elenco
O ponto que mais vai mexer no futebol é o controle do custo do elenco. A regra considera salários, encargos, direitos de imagem e amortizações das contratações de jogadores. O custo precisa ser compatível com a capacidade financeira do clube e o regulamento estabelece como referência o limite de 70% da soma de receitas, transferências e aportes. Ou seja: se o clube tem receita de R$ 100 milhões por ano, ele só pode gastar 70% desse valor com as despesas mencionadas.
Isso muda a lógica de determinadas contratações de atletas. Um clube pode até ter dinheiro para contratar um jogador, mas precisa olhar para o conjunto de seus gastos antes. Não adianta contratar três estrelas, aumentar salários, pagar luvas e direitos de imagem e depois descobrir que a estrutura inteira ultrapassou o limite estabelecido. Vai ser preciso ser mais gestor do que cartola. Mais profissional do que amador. Mais fazedor de contas na ponta do lápis do que aventureiro. É uma mudança importante porque o futebol brasileiro se acostumou a anunciar primeiro e perguntar depois como pagar. Agora, a conta vem antes.
E o déficit?
Também é preciso fazer uma ressalva importante: o Fair Play Financeiro da CBF não determina que todo clube que gastar mais do que arrecada será punido. O sistema prevê uma avaliação de equilíbrio operacional ao longo de três temporadas. Para a Série A, o déficit permitido é de até R$ 30 milhões ou 2,5% das receitas, conforme os critérios estabelecidos. Além disso, aportes de capital podem cobrir déficits sem limite específico dentro desse mecanismo.

Por isso, Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Atlético-MG, Cruzeiro, São Paulo, Vasco e outros clubes que apresentam momentos de déficit não estão automaticamente condenados pelo simples fato de terem fechado determinado período no vermelho. O problema é quando o déficit vira rotina, a dívida cresce, os pagamentos atrasam e o clube continua aumentando a folha como se nada estivesse acontecendo — o que tem sido menos exceção e mais regra no Brasil.
Dívida de curto prazo
O Fair Play Financeiro também quer atacar uma doença antiga do futebol brasileiro: o clube que arrecada muito, mas precisa gastar quase tudo o que recebe para pagar dívidas antigas. A regra estabelece que a dívida líquida de curto prazo deverá ficar em até 45% das receitas relevantes. Mas esse índice também terá uma implantação gradual: 60% em 2028, 50% em 2029 e 45% a partir da temporada de 2030. Portanto, a CBF deu mais do que tempo suficiente para que os clubes organizassem suas finanças.
Agora, a regra se não cumprida tem consequências. É, de cara, uma bomba-relógio para quem vive de antecipar receitas. O clube que vende direitos de televisão, patrocínio, premiações e outros recebíveis para pagar contas do presente terá cada vez menos espaço para fazer isso sem comprometer seus indicadores. E se comprometer, estará no vermelho com a CBF. Ou seja: sofrerá sanções.
Quem está fazendo a lição de casa?
Hoje, não existe uma lista definitiva da ANRESF dizendo que este ou aquele clube brasileiro de qualquer divisão esteja “aprovado” para todo o sistema. A fiscalização considera que informações periódicas e demonstrações financeiras, e vários outros índices, ainda estão em período de transição. Mas há sinais. O estudo da BDO apontou Flamengo e Grêmio como os únicos clubes da Série A que cumpriam os três pilares financeiros analisados com base nos balanços disponíveis. Nem o Palmeiras está nessa. Isso não significa que estejam protegidos nem que os demais estejam irregulares. É apenas a fotografia utilizada pelo levantamento. Os parafusos estão sendo apertados. Ao menos é isso que a CBF espera.

O Flamengo, inclusive, assumiu uma posição de defesa do sistema e apresentou propostas à ANRESF e à CBF para aperfeiçoar a regulamentação. O clube da Gávea quer evitar que mecanismos de recuperação financeira sejam utilizados para produzir vantagem esportiva indevida a quem quer que seja. A decisão não cabe a ele, mas a CBF levou em consideração. O Fla está na frente nesse requisito “organização financeira” no futebol. Mas a sua movimentação não deixa de ser significativa: um dos clubes que mais investem no futebol brasileiro está dizendo que aceita jogar dentro de regras financeiras mais rígidas.
Palmeiras e Flamengo atentos aos rivais
A fotografia de 2026 mostra que nem mesmo os clubes mais ricos estão confortáveis. Palmeiras e Flamengo registraram déficit no primeiro semestre deste ano. O Palmeiras teve déficit de R$ 124,1 milhões, enquanto o Flamengo fechou o período com resultado negativo de R$ 33,8 milhões. Os números, isoladamente, não significam infração ao Fair Play, mas mostram a pressão provocada por folhas elevadas, amortizações de jogadores e investimentos pesados.

É isso que o novo sistema da CBF, em prol do futebol menos bagunçado financeiramente, pretende acompanhar: não apenas quanto o clube ganha, mas quanto custa manter o futebol funcionando. Existe uma questão importante em tudo isso: clubes que pagam em dia e seguem as regras não vão tolerar nem aceitar rivais que não fazem o mesmo e disputam as mesmas competições.
Corinthians é um caso delicado
E aqui o Corinthians aparece em uma situação desconfortável. O clube convive com salários e direitos de imagem atrasados, dívidas internacionais, transfer bans e dificuldade para registrar jogadores. A mais nova confusão envolve Memphis Depay. Há a possibilidade de o jogador cobrar uma dívida de R$ 180 milhões do presidente Osmar Stabile. Isso quebra o Corinthians. Mas o problema corintiano é anterior ao Fair Play. Ocorre que o novo sistema torna a situação ainda mais delicada porque transforma a falta de pagamento em uma condição regulatória, e não apenas financeira. O Corinthians não pode mais pensar apenas em como contratar jogadores como Depay. Precisa pensar em como pagar quem já está no vestiário.
São Paulo já sentiu o peso das regras
O primeiro sinal forte veio agora em agosto. A ANRESF determinou que o São Paulo poderá sofrer transfer ban “caseiro” caso não quite uma dívida de R$ 600 mil com o Novorizontino em até 45 dias. O caso envolve a contratação de Djhordney Ferreira. Além da obrigação, foi aplicada multa de R$ 100 mil e correção monetária. Se não houver pagamento ou novo acordo, o clube poderá ficar impedido de registrar jogadores, inclusive nas categorias de base. É um caso pequeno perto das dívidas dos gigantes brasileiros. Mas por isso é importante. Mostra que a ANRESF não está olhando apenas para as grandes dívidas. A lógica do sistema começa a ser aplicada em obrigações menores.
E as punições?
A escala de punições é pesada. E ninguém ainda sofreu penas. Mas, segundo a CBF, vai sofrer. Dependendo da infração e da gravidade, o clube será notificado com:
Advertência pública;
Multa;
Retenção de receitas;
Transfer ban, impedindo o registro de jogadores;
Perda de pontos;
Rebaixamento;
Não concessão ou cassação da licença;
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Existe ainda a possibilidade de Acordos de Ajustamento de Conduta para clubes que precisem de um plano de adequação. Para dirigentes e outras pessoas físicas, as punições também podem chegar a suspensão, proibição de exercer cargos e até banimento do futebol. Banimento, vale ressaltar, é para sempre. Portanto, o futebol brasileiro e os seus dirigentes vão precisar aprender a fazer contas. O Fair Play Financeiro não vai acabar com os clubes endividados de um dia para o outro. Nem vai impedir que um dono coloque dinheiro em uma SAF. A CBF decidiu, inclusive, não limitar os aportes de capital para preservar a possibilidade de investimento.
O que muda é a lógica. O clube poderá continuar investindo e contratando. Poderá continuar pagando altos salários. Mas terá de provar que consegue sustentar essa operação. E essa talvez seja a maior mudança de todas. O futebol brasileiro passou décadas premiando quem gastava mais. O dirigente contratava, o torcedor comemorava, o treinador ganhava jogadores e a conta ficava para depois. A partir de agora, a CBF quer que o clube pense primeiro na receita, depois na despesa e só então no jogador. O único objetivo de tudo isso é ter clubes mais competitivos, com bons jogadores e campeonatos ricos e de melhor qualidade técnica.





