A Bélgica estava morta. Não no sentido figurado, daqueles exageros que o futebol permite quando um time joga mal por meia hora. Estava morta mesmo. Eliminada na falta de atitude em campo, no placar, no rosto dos seus jogadores e na forma como Senegal administrava uma vitória que parecia pronta para entrar na galeria das grandes afirmações africanas em Copas do Mundo. Até que, mais uma vez, os belgas encontraram no fim da partida aquilo que não haviam encontrado durante quase todo o jogo: força mental para empatar em, 2 a 2, no tempo normal e virar, para 3 a 2, no final da prorrogação.
O triunfo sobre Senegal, nesta quarta-feira, em Seattle, foi uma classificação arrancada no limite da razão. A Bélgica perdia por 2 a 0 até os 40 minutos do segundo tempo, jogava pouco, produzia menos ainda e via Kevin De Bruyne, que saira aos 11 minutos do segundo tempo, enquanto esteve em campo, sem o peso que se espera de um dos grandes jogadores de sua geração. Aí Romelu Lukaku, que começou no banco, diminuiu aos 41 minutos. Três minutos depois, Youri Tielemans empatou, de cabeça, aproveitando uma falha bisonha dp goleiro Mory Diaw. E, já no fim da prorrogação, o próprio Tielemans sofreu e converteu o pênalti, marcado após revisão do VAR, que empurrou os belgas às oitavas de final.

Bélgica ressurge das cinzas
Foi uma virada com cheiro de 2018. Na Rússia, contra o Japão, a Bélgica também perdia por 2 a 0, também parecia encurralada pelo próprio destino e também escapou com uma vitória por 3 a 2. Naquele dia, a geração dourada ainda parecia no auge. Agora, oito anos depois, a história se repetiu com um time mais velho, mais irregular e menos encantador, mas ainda capaz de sobreviver quando o abismo já está aberto.
Senegal, por sua vez, vai demorar a entender como perdeu esse jogo. Porque não foi apenas uma eliminação. Foi uma partida entregue depois de estar sob controle. Habib Diarra abriu o placar aos 25 minutos do primeiro tempo, premiando uma equipe mais intensa, mais rápida e mais lúcida. Antes disso, Ismaila Sarr já havia acertado a trave, avisando que a tarde belga seria tortuosa. No intervalo, a vantagem senegalesa era justa.
No começo do segundo tempo, o roteiro ficou ainda mais cruel para os europeus. Mané arrancou pela área, desmontou a marcação e serviu Diarra, que perdeu uma chance enorme para fazer o segundo. Pouco depois, Sarr não perdoou. Recebeu lançamento longo, dominou com categoria e bateu forte para fazer 2 a 0. Senegal tinha o jogo na mão. E talvez este tenha sido exatamente o problema: teve o jogo na mão cedo demais.
Senegal amarela
A Bélgica só começou a reagir depois de transformar o desespero em método. Lukaku entrou para dar peso, referência e presença. Não fez uma partida brilhante no sentido estético, mas mudou o clima. Passou a prender zagueiros, a atacar a primeira trave e a oferecer uma saída para um time que, até então, parecia jogar sem destino.
O momento que ajuda a entender o nervosismo dos belgas acontece no instante que o árbitro hondurenho Said Martinez sinalizou a parada técnica de hidratação. No caminho para o banco de reservas, Tielemans e Trossard bateram boca de forma dura. A discussão precisou ser contida por companheiros. Era o tipo de cena que costuma anunciar uma queda. Mas, no futebol, às vezes, o incêndio consome o time. Em outras, acende.
Mesmo não jogando bem, a Bélgica seguiu lutando e foi premiada. O gol aos 41 minutos nasceu desse instinto de sobrevivência: cruzamento baixo de Meunier, Lukaku se antecipando e finalizando como centroavante. Três minutos depois do gol do centroavante, Trossard recebeu pela esquerda e cruzou para o meio da área. Mory Diaw saiu do gol de maneira desastrosa, não encontrou a bola e deixou Tielemans cabecear para o gol vazio. Era o empate belga, o colapso senegalês e o início de uma prorrogação que já nasceu com cara de sentença adiada.

Virada heroica
Mané ainda deixou a partida no início do tempo extra, substituído por Nicolas Jackson. Foi uma imagem amarga: o maior símbolo desta geração senegalesa assistindo do banco ao país tentar resistir sem ele. E Senegal ainda tentou. Teve momentos de fôlego, finalizou de longe, encontrou espaços, mas já não tinha a mesma convicção. A Bélgica, mesmo cansada, parecia acreditar mais no improvável.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
O golpe final veio quando muitos pensavam que as cobranças de pênaltis era questão de tempo, mas teve penalidade, apenas uma e decisiva. Tielemans foi derrubado na área, o VAR chamou, o pênalti foi confirmado, e o capitão assumiu a bola com a frieza de quem havia transformado uma tarde de briga em redenção. Bateu, marcou e sacramentou uma virada tão improvável quanto reveladora.
A Bélgica passa. Mas passa ferida, instável, sobrevivente. Passa sem convencer, carregando dúvidas sobre De Bruyne, sobre sua consistência e sobre o quanto ainda pode avançar nesta Copa. Ao mesmo tempo, passa com Lukaku ressurgindo, Tielemans se agigantando e uma memória incômoda para qualquer adversário: este time pode parecer acabado, mas ainda sabe voltar dos mortos.





