Mikel Merino não precisa controlar uma partida durante 90 minutos para dominá-la. Às vezes, bastam um espaço aberto, uma bola devolvida pela defesa ou um cruzamento colocado no ponto certo. Quando o jogo se aproxima do fim e as decisões começam a ser tomadas mais pelo instinto do que pela organização, o meio-campista parece enxergar aquilo que os outros já não conseguem perceber.

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Nascido em Pamplona, em 22 de junho de 1996, Merino chegou ao Arsenal em agosto de 2024, depois de seis temporadas na Real Sociedad. Meio-campista de origem, começou a carreira no Osasuña, o camisa 6 reúne características que o permitem atuar mais adiantado: força física, capacidade para disputar bolas aéreas, tranquilidade na definição e, principalmente, senso de oportunidade para atacar a área vindo de trás.

Merino celebra o gol com os dedos
Merino dedica o seu gol com as letras “L” e “M” Lola, sua mulher,  Marco, o filho recém-nascido / Sefutbol

Um milésimo de segundo em Stuttgart

Essa última qualidade acabou transformada em uma marca. Em um intervalo de dois anos, Merino marcou três gols decisivos em partidas eliminatórias da Espanha. O primeiro levou a seleção à semifinal da Eurocopa de 2024. Os outros dois, contra Portugal e Bélgica, colocaram o país entre os quatro melhores da Copa do Mundo de 2026. Mais do que a repetição dos gols, chama a atenção a semelhança dos contextos. Merino começou as três partidas no banco. Entrou quando o desgaste já pesava, as defesas perdiam referências e a bola parecia mais difícil de controlar. Nas três ocasiões, encontrou o espaço que faltava.

A sequência começou em 5 de julho de 2024, na Arena Stuttgart. Espanha e Alemanha disputavam as quartas de final da Eurocopa. Dani Olmo havia colocado os espanhóis em vantagem, mas Florian Wirtz empatou aos 44 minutos do segundo tempo e levou o confronto para a prorrogação. Merino entrou aos 35 minutos da etapa final. Quando a partida já caminhava para os pênaltis, apareceu entre os defensores alemães para alcançar o cruzamento de Olmo. Aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, ele cabeceou para o chão e marcou o gol da classificação espanhola. Depois da partida, descreveu o lance como uma sucessão de decisões instantâneas: “Tudo aconteceu em um milésimo de segundo. O resto é história.” A Espanha seguiria adiante para conquistar a Eurocopa.

O estádio de Stuttgart já fazia parte da história da família. Em novembro de 1991, Ángel Miguel Merino, conhecido no futebol como Miguel Merino, marcou o segundo gol da vitória do Osasuna por 3 a 2 sobre o Stuttgart, resultado que levou o clube navarro às oitavas de final da Copa da Uefa. Depois do gol, correu em volta da bandeirinha de escanteio. Trinta e três anos mais tarde, Mikel repetiria o gesto no mesmo estádio, após decidir para a Espanha contra a Alemanha.

Das noites difíceis ao gol contra Portugal

A presença de Merino na Copa do Mundo de 2026 chegou a ser ameaçada por uma grave lesão no pé direito. Operado por causa de uma fratura por estresse, passou meses afastado e iniciou a recuperação sem a certeza de que teria condições de disputar o torneio. Ainda assim, foi convocado por Luis de la Fuente e recuperou espaço gradualmente.

Em 6 de julho de 2026, Espanha e Portugal se enfrentaram nas oitavas de final. A partida permaneceu empatada sem gols até os minutos finais. Merino substituiu Dani Olmo aos 40 minutos do segundo tempo. Seis minutos depois, aos 46 minutos, marcou o gol da vitória espanhola. A jogada sintetizou seu perfil. Merino revelou que observava o posicionamento da defesa portuguesa desde o aquecimento. Percebeu que um dos zagueiros abandonava sua zona para pressionar e deixava um corredor nas costas. Quando o movimento se repetiu, atacou o espaço. “Encontrei um espaço e Ferran me colocou em condição.”

O gol também carregou o peso dos meses de recuperação. Na zona mista, o jogador recordou os momentos em que temeu perder a competição“Minha mente voltou àquelas noites difíceis, quando pensava que não faria parte desta equipe.”

Dois dias depois, em entrevista à Cadena SER, da Espanha, revelou qual foi a primeira lembrança após o gol: “Stuttgart veio à minha cabeça… que sorte a minha.” 

As duas partidas também ocorreram durante o período das festas de San Fermín, símbolo de Pamplona e da identidade navarra. Merino havia levado um lenço vermelho para comemorar caso marcasse contra Portugal, mas o esqueceu no vestiário. A coincidência ganhou contornos de amuleto. “É minha arma secreta e me dá muita sorte. “San Fermín me protege”

Ao festejar seu gol contra Portugal, Merino repete a comemoração do pai, na partida histórica pelo Osasuña / Sefutbol

Contra a Bélgica, o improvável vira hábito

Aos 41 minutos do segundo tempo, De la Fuente o colocou no lugar de Dani Olmo, orientando-o a atuar como um camisa 10. Dois minutos depois, Pau Cubarsí arriscou de fora da área. Lammens não segurou, e o meio-campista se antecipou à defesa para aproveitar o rebote e fazer 2 a 1.

Ao deixar o campo, Merino poderia ter aceitado a explicação mais simples. Poderia falar em sorte, destino ou coincidência. Preferiu defender a existência de um método“Não há casualidades. Se três oportunidades caíram para mim, é porque me preparo para quando chega a hora.”

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A partida diante da Bélgica teve também um significado familiar. A esposa, Lola Liberal, e o filho Marco estavam no estádio, depois de não acompanharem presencialmente o gol contra Portugal. Merino brincou que precisou repetir a atuação para que eles pudessem vê-la. Emocionado, definiu-se como um privilegiado e disse estar ainda mais feliz por compartilhar aquele momento com a família.

 

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