O duelo entre França e Espanha, nesta terça-feira, em Dallas, vale uma vaga na decisão da Copa do Mundo de 2026. Para a Espanha, porém, há algo ainda maior em jogo: a possibilidade de escrever um capítulo definitivo da história do futebol de seleções. A Fúria entra em campo defendendo uma invencibilidade de 37 partidas — 30 vitórias e sete empates — exatamente a mesma sequência alcançada pela Itália entre 2018 e 2021. Se vencer a França, além de confirmar presença na final, a Fúria estabelecerá sozinha o maior período de invencibilidade já registrado entre seleções nacionais.
É um ingrediente a mais para um confronto que já seria extraordinário por natureza. Há também o duelo particular entre Kylian Mbappé e Lamine Yamal, representantes de duas gerações distintas. O francês chega embalado pela disputa da artilharia da Copa e pela corrida silenciosa que trava com Lionel Messi para se transformar, ao longo da carreira, no maior goleador da história dos Mundiais. Cada jogo representa um novo degrau nessa escalada.

Do outro lado está Yamal. O prodígio do Barcelona completou 19 anos na segunda-feira carregando uma responsabilidade incomum para alguém tão jovem. Dono de apenas um gol neste Mundial, ainda não protagonizou uma atuação capaz de definir a sua Copa. A semifinal oferece o palco perfeito para isso. Grandes jogadores costumam escolher grandes ocasiões para se apresentarem definitivamente ao mundo. Se existe um momento para Yamal deixar de ser apenas uma promessa extraordinária e assumir o protagonismo da competição, ele chegou.
Final antecipada
Para muitos analistas, trata-se de uma espécie de final antecipada do Mundial, apesar de a outra chave reunir Argentina e Inglaterra, duas forças que também merecem respeito. A avaliação faz sentido. A França foi, até aqui, a seleção que venceu seus compromissos com maior autoridade. Pouco sofreu, controlou praticamente todos os adversários e exibiu o futebol mais convincente da competição. Didier Deschamps dispõe de um elenco exuberante, capaz de decidir partidas por diferentes caminhos, seja pela velocidade de Mbappé, pela criatividade de Michael Olise, pela explosão de Dembélé ou pela consistência coletiva de um grupo que parece ter atingido o auge justamente na reta decisiva da Copa.
A Espanha percorreu um caminho diferente. Conviveu com oscilações na fase de grupos, mas cresceu sensivelmente nos confrontos eliminatórios. A equipe recuperou a confiança, consolidou seu sistema defensivo e voltou a exibir as características que definem sua identidade há quase duas décadas: posse de bola qualificada, controle do ritmo da partida, paciência para construir as jogadas e serenidade nos momentos de maior pressão. Talvez não possua tantas individualidades decisivas quanto a França, mas compensa isso com uma impressionante organização coletiva.
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Não há dúvida de que a França apresenta o futebol mais bonito desta Copa. Até poucos dias atrás parecia consenso imaginar que só perderia o título em caso de algum acidente de percurso. O problema é que agora o acidente atende pelo nome de Espanha, uma seleção acostumada a competir, que carrega retrospecto favorável nos confrontos recentes e que chega sustentada não apenas pelo talento, mas também por uma confiança construída ao longo de três anos sem conhecer uma derrota.
Essa sequência ajuda a explicar por que a semifinal ganha contornos históricos. A invencibilidade espanhola começou em 15 de junho de 2023, justamente com uma vitória por 2 a 1 sobre a Itália na semifinal da Liga das Nações. Desde então, a seleção conquistou a Nations League, levantou a taça da Eurocopa de 2024 e agora alcança as semifinais da Copa do Mundo acumulando 30 vitórias, sete empates, 96 gols marcados e apenas 26 sofridos. Caso elimine a França, deixará para trás justamente a Itália, tornando-se dona isolada da maior série invicta já registrada no futebol de seleções.
Padrão lá no alto
Independentemente de quem avance, esta semifinal reforça uma percepção difícil de contestar: hoje o futebol europeu estabelece o padrão técnico mais elevado do mundo. A Argentina pode, mais uma vez, desafiar essa lógica amparada pelo talento quase sobrenatural de Messi. Inglaterra e Espanha também possuem credenciais suficientes para sonhar com o título. Ainda assim, pelo futebol apresentado até aqui, a França parece reunir as melhores condições para levantar a taça.
Talvez a maior vitória desta Copa, entretanto, esteja acima de qualquer seleção. Quando a Fifa anunciou um Mundial com 48 participantes, multiplicaram-se as previsões de que o torneio perderia qualidade técnica e se tornaria excessivamente longo. O que se viu foi justamente o contrário. A competição chega à reta final cercada de grandes jogos, histórias marcantes, novos protagonistas e seleções fortes disputando cada vaga com enorme equilíbrio. O produto futebol saiu fortalecido.
Tomara que essa constatação encontre eco também no Brasil. O Mundial mostrou, mais uma vez, que tradição, camisa pesada e talento individual já não bastam. As grandes seleções do planeta venceram porque possuem planejamento, organização, identidade e estruturas modernas de trabalho. Quem insistir em acreditar que apenas um punhado de craques resolverá tudo dentro de campo continuará olhando para a taça de longe. O futebol de hoje exige muito mais do que memória. Exige competência.





