É o mais longo jejum em Copas do Mundo. Em 1966, a seleção da Inglaterra viveu seus melhores dias e fez o maior feito da sua história. A imprensa local apelidou o time de “Wingless Wonders” (“a maravilha sem alas”) por conta do seu esquema tático 4-3-3 sem utilizar pontas no ataque. O grande responsável pela elaboração do esquema foi o técnico Alf Ramsey, ex-jogador da Copa de 50, que teve três anos para preparar o time. E assim prometeu: “A Inglaterra vencerá”. Foi o primeiro treinador do English Team a convocar seus próprios atletas, antes escolhidos por uma comissão de velhos dirigentes.

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O Mundial daquele ano foi recheado de confusões dentro e fora dos gramados. Quatro meses antes do início da competição, a Taça Jules Rimet sumiu da biblioteca de Westminster Center Hall, em Londres, onde estava sendo exposta. Oito dias depois a taça reapareceu, graças a um cachorro vira-lata chamado Pickles, que encontrou a taça num terreno baldio embrulhado num jornal. O cãozinho virou herói e seu dono, um comerciante inglês, recebeu a recompensa de 5.000 libras esterlinas por encontrar o troféu. Por ser país-sede do torneio, a Inglaterra não disputou as Eliminatórias Europeias.

Em 1966, a Inglaterra do goleiro Gordon Banks e do zagueiro Bobby Moore venceu sua única Copa do Mundo / Fifa

A grande sensação da qualificação do Velho Continente foi Portugal, do craque Eusébio, que se classificou pela primeira vez para a competição. O time lusitano eliminou Romênia, Turquia e a então vice-campeão mundial e olímpica, a Tchecoslováquia. Além do English Team, a seleção brasileira também não disputou a Eliminatória Sul-Americana por ter sido campeão na Copa de 1962, no Chile. Com muita desorganização e um time recheado de veteranos, a equipe sul-americana não passou da primeira fase.

Uma equipe organizada

A maior virtude do time inglês era o sistema defensivo. O goleiro Gordon Banks era um dos grandes destaques da equipe. Aos 28 anos, o arqueiro atuava no pequeno Leicester City e chamava atenção pelo posicionamento e uma velocidade de reação impressionante. Um dos líderes do time, o camisa 1 ficou os quatro primeiros jogos na Copa sem tomar um único gol. A zaga era composta por um zagueiro técnico (Bobby Moore) e um marcador (Jack Charlton).

Com o Estádio de Wembley lotado, a Inglaterra superou a Alemanha Ocidental na final da Copa de 1966 / Fifa

No meio-campo, o cérebro do time era Bobby Charlton que combinava visão de jogo e grandes arrancadas. Curiosamente, ele usava a camisa 9, que geralmente pertence aos centroavantes de ofício. De toda maneira, Charlton que defendia o Manchester United fez três gols decisivos naquela Copa do Mundo. Maior artilheiro daquele time, o centroavante Jimmy Greaves se lesionou ainda na primeira fase. O goleador do Tottenham conseguiu se recuperar para a final contra a Alemanha Ocidental. Com a lesão do titular, Alf Ramsey deu chance para o jovem Geoff Hurst, que teve um desempenho acima do esperado.

Um dos grandes personagens daquele time era o próprio treinador. Metódico e disciplinado, Alf Ramsey costumava dizer que sua equipe atuava de maneira descomplicada. “O futebol é um jogo simples que é frequentemente complicado pelas pessoas que deveriam simplificá-lo”. Com seu olhar severo, o comandante ficava calado nas partidas e não gostava de dar entrevistas. Sempre manteve uma relação bastante conflituosa com a imprensa britânica. Era conservador até mesmo no jeito de vestir, sempre de terno e gravata.

Campanha consistente

A Inglaterra fez os seis jogos naquele Mundial no lendário Estádio de Wembley, em Londres. Na estreia, um empate sem gols contra o forte Uruguai do goleiro Mazurkuwicz e do atacante Pedro Rocha. Já nas duas rodadas posteriores, o English Team passou pelo México e França pelo mesmo placar 2 a 0. Com sete pontos, a Inglaterra terminou o Grupo 1 na primeira colocação e avançou no torneio. Na fase quartas de final, os comandados de Alf Ramsey encararam a Argentina.

Rattin ficou revoltado ao ser expulso e amassou a bandeirinha de escanteio, que trazia a bandeira da Inglaterra / AFA

No primeiro tempo, o volante Rattin da Albiceleste foi expulso pelo árbitro alemão W. Kreitlein. Mas eles não se entendiam. O jogador pediu um intérprete e contestou a arbitragem. A caminho dos vestiários, Rattin passou a mão em uma das bandeirinhas de escanteio que trazia a bandeira da Inglaterra. Depois, ainda sentou no tapete vermelho que era de uso exclusivo da rainha Elizabeth II. A torcida local arremessou copos de cervejas e moedas. Alf Ramsey se referiu aos argentinos de uma maneira extremamente preconceituosa.

Final questionada

Na semifinal, a Inglaterra encarou a grande sensação da competição: Portugal. Diante de 90 mil pessoas em Wembley, Bobby Charlton marcou os dois gols e mandou na partida. Eusébio diminuiu a diferença no final do placar, mas já não dava mais tempo. O English Team enfrentou a Alemanha Ocidental na decisão, No tempo normal, a partida terminou 2 a 2. Mas nos acréscimos, o atacante Hurst recebeu a bola de um cruzamento de direita. Ao chutar, a bola encobriu o goleiro alemão Tilkowski, bateu no travessão e caiu muito próximo da linha.

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Após consultar o bandeirinha, o juiz suíço Gottfired Dienst validou o gol. Até hoje, não é possível afirmar com certeza se a bola entrou ou não. No último minuto da prorrogação, com a defesa alemã exposta no ataque, Hurst recebeu um longo lançamento de Bobby Moore e chutou no ângulo, fechando a partida em 4 a 2. Dessa maneira, a seleção inglesa garantiu seu único título em Copas do Mundo. “Aquela foi a maior conquista na história do esporte na Inglaterra. E será por muitos anos, quem sabe, para sempre”, disse Bobby Charlton em entrevista anos depois. Nesta quarta-feira, o English Team tem toda a chance de se classificar para sua segunda final em Mundiais contra a Argentina no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.

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