Confesse: você já viu esse filme antes. Ou melhor, já ouviu esse tango tantas vezes. A Argentina de Lionel Messi deu mais uma demonstração de como joga um campeão do mundo ao derrotar a Inglaterra por 2 a 1, de virada, na tarde desta quarta-feira, em Atlanta, repetindo exatamente o roteiro das últimas quatro partidas. Um roteiro que traduz toda a glória de um time que não aceita a derrota e jamais se entrega enquanto houver esperança. Um time com alma de guerreiro, que honra sua camisa, orgulha seu povo e não se cansa de lembrar aos adversários que ali existe história. Que ali existe uma camisa pesada. Que é preciso respeitar.

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Tudo isso com a vantagem de ter em campo um gênio como Lionel Messi. Aos 39 anos, ele continua colocando a bola debaixo do braço quando a partida exige. Com o físico no limite, passa longos minutos aparentemente distante do jogo. Mas basta a bola encontrar seu pé esquerdo para o mundo parar. Os segundos desaceleram, o estádio prende a respiração e algo extraordinário parece inevitável.

Messi e o técnico Scaloni
Messi e Scaloni se abraçam após a consagração com a virada que vale a vaga à segunda final seguida da dupla / Fifa

Messi destrói a Inglaterra

A Inglaterra caiu justamente na armadilha de acreditar que desta vez seria diferente. Imaginou que aquela Argentina já não teria forças para transformar mais uma desvantagem em vitória. Abriu o placar, recuou por precaução, jogou para administrar o resultado e acabou despertando exatamente o que mais deveria temer: o espírito de sobrevivência da seleção que faz desta Copa do Mundo a Copa da superação. Diante de uma Inglaterra covarde, os argentinos avançaram sua tropa ofensiva sem medo até conseguirem uma virada que, durante boa parte da tarde, parecia impossível. Se aquele jogo era uma guerra, a Argentina mostrou mais uma vez como se porta num campo de batalha.

Agora, Argentina e Espanha decidirão o Mundial no próximo domingo, em Nova Jersey. Será a terceira final de Copa do Mundo de Lionel Messi. O último tango de um dos maiores jogadores da história já tem data para terminar. E a Argentina terá diante de si a oportunidade de alcançar um feito que apenas o Brasil conseguiu: conquistar duas Copas do Mundo consecutivas, repetindo a façanha de 1958 e 1962.

Damas, cavaleiros e todas as honrarias do Império Britânico estavam a postos para a batalha mais importante da história do futebol inglês desde 1966. Plebeus dividiam espaço com integrantes da aristocracia esportiva e artística. Sir David Beckham, acompanhado de Lady Victoria, liderava o desfile das celebridades. Poucos camarotes adiante, Mick Jagger acompanhava tudo com a discrição de quem conhece a fama de pé-frio que o persegue. A maldição estava no ar… Do outro lado, um exército de argentinos seguia o seu maior general: o capitão Lionel Messi.

Orgulho argentino

As rusgas do passado e as lembranças doloridas, jamais cicatrizadas, da Guerra das Malvinas voltavam a dar um significado ainda maior ao duelo. Inglaterra e Argentina jamais disputam apenas uma partida de futebol. Desde então, peleiam pela memória, orgulho e identidade. Em Atlanta, a semifinal correspondeu exatamente ao que prometia. Foi uma batalha entre duas grandes seleções, num daqueles jogos que engrandecem a história das Copas.

A tensão dominou completamente o primeiro tempo. Num clima bélico, jogadores das duas seleções buscavam contato físico, cavavam faltas, reclamavam com o juiz e se encaravam como se estivessem numa luta de boxe. O futebol demorou a aparecer. A primeira conclusão surgiu apenas aos 32 minutos, quando Stones cabeceou para fora após cobrança de falta.

O panorama mudou na volta do intervalo. Julián Álvarez obrigou Pickford a fazer a primeira defesa da partida logo nos minutos iniciais e deu o sinal de que a Argentina queria jogo. Mas, a 1 minuto, a Inglaterra encontrou o golpe que parecia perfeito. Morgan Rogers recebeu lançamento pela direita, levantou a cabeça e cruzou na medida para Gordon aparecer nas costas do lateral argentino para abrir o placar. Qualquer outro adversário talvez tivesse sentido o golpe. A Argentina, como já fizera antes, sentiu que era hora de partir para o tudo ou nada, sob o condão de seu craque da camisa 10.

Messi Lautaro decisivo de novo
Artilheiro do momento decisivo, Lautaro Martínez comemora o gol que coloca a Argentina na decisão contra a Espanha / Fifa

Até última gota de suor

Empurrada pela alma de um campeão e pela genialidade de Messi, a equipe de Scaloni cercou a área inglesa. Nico González parou em Pickford. Mac Allister acertou a trave. A pressão tornou-se insuportável. Até que Enzo Fernández apareceu duas vezes na mesma jogada. Na primeira finalização, Pickford fez um milagre. Na sobra do escanteio, o volante acertou um chute violento, sem qualquer possibilidade de defesa. Era o empate que fazia inteira justiça ao que o segundo tempo mostrava.

A Inglaterra já não conseguia respirar. Encurralada, apenas resistia enquanto Messi passava a comandar cada posse de bola como o senhor do jogo, o dono da bola. Depois de outra bola na trave de Mac Allister, o camisa 10 recebeu pela direita, levantou a cabeça e, com a precisão dos gênios, cruzou de pé direito para Lautaro Martínez cabecear na pequena área e decretar a virada: 2 a 1.

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O apito final, logo ali, não classificou apenas a Argentina para mais uma decisão de Copa do Mundo. Consagrou uma geração que transformou a resistência em identidade. Um time que se recusa a perder, que desafia a lógica e que parece crescer justamente quando todos acreditam que chegou ao seu limite. Mais: devolveu ao país o mesmo orgulho vivido na Copa de 86, naquele famoso jogo da Mano de Dios de Maradona. Para os argentinos, até seria aceitável perder a Copa; jamais perder essa guerra com os ingleses. No domingo, diante da Espanha, Lionel Messi dançará seu último tango. E, se depender da alma desta Argentina, ele poderá sair de campo coroado como rei.

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