A 20ª rodada do Campeonato Brasileiro ficará marcada como um divisor de águas na história da arbitragem nacional. Depois de anos de expectativa, testes e promessas, o impedimento semiautomático fez sua estreia oficial na Série A. O primeiro lance analisado aconteceu na partida entre Santos e Chapecoense, no sábado, na Vila Belmiro, quando o sistema foi utilizado para validar um gol da equipe catarinense em uma jogada de posição extremamente ajustada. O protocolo funcionou como previsto, o gol foi confirmado e a tecnologia passou, enfim, a fazer parte da rotina do futebol brasileiro.
É um passo importante. Talvez o mais significativo desde a chegada do VAR, em 2019. Mas transformar essa estreia em solução definitiva para a arbitragem seria um exagero. O impedimento semiautomático melhora um aspecto específico do jogo, porém está longe de atacar a raiz da crise de credibilidade que acompanha os árbitros brasileiros há várias temporadas. A principal virtude da novidade é eliminar parte da subjetividade que existia nas análises de impedimento. Até aqui, a revisão de um lance dependia da escolha manual do quadro exato do passe e do traçado das linhas de referência pelos operadores do VAR. Era justamente esse processo que alimentava inúmeras discussões. Bastava uma imagem pouco clara ou um lance muito apertado para que surgissem questionamentos sobre a precisão da decisão.

Tecnologia ajuda arbitragem
Com o novo sistema, grande parte desse trabalho passa a ser automatizada. As câmeras instaladas nos estádios captam dezenas de pontos do corpo dos jogadores, identificam suas posições em três dimensões e calculam automaticamente a linha do impedimento. Ao árbitro de vídeo cabe validar o resultado produzido pelo sistema antes da decisão ser confirmada em campo. Na prática, isso torna o procedimento mais rápido e transmite maior confiança. Os números da primeira rodada de utilização ajudam a comprovar essa evolução. Segundo a CBF, o sistema foi acionado cinco vezes durante a 20ª rodada, com tempo médio inferior a um minuto para conclusão das análises. Em um campeonato acostumado a paralisações longas durante revisões do VAR, qualquer redução representa ganho para o espetáculo.
“O primeiro fim de semana de utilização oficial do impedimento semiautomático foi extremamente positivo e confirmou que estamos no caminho certo. A tecnologia entregou aquilo que esperávamos: mais agilidade, precisão e segurança nas decisões, reduzindo significativamente o tempo de análise dos lances e proporcionando maior fluidez às partidas”, disse Netto Góes, Diretor de Arbitragem da CBF.
Outro aspecto positivo está na comunicação com o torcedor. As animações tridimensionais exibidas na transmissão tornam muito mais fácil compreender por que determinado jogador estava ou não em posição irregular. Não significa que todos concordarão com as decisões, mas a sensação de transparência aumenta quando a imagem explica visualmente aquilo que antes dependia apenas de linhas coloridas desenhadas sobre a tela. Esse avanço, porém, tem limites muito claros. O impedimento é uma decisão objetiva. Existe uma resposta correta para cada lance. O jogador está em posição legal ou não está. A tecnologia consegue calcular isso com enorme precisão.
Broncas persistentes
Só que os maiores problemas da arbitragem brasileira quase nunca surgem em lances desse tipo. As reclamações que dominam as coletivas, inflamam dirigentes e movimentam debates nas redes sociais normalmente envolvem situações interpretativas. Toques de mão, intensidade de contatos, disputas dentro da área, faltas, cartões vermelhos, vantagem, interferência de jogadores e critérios disciplinares continuam dependendo exclusivamente da leitura feita pelo árbitro.
Nenhum software é capaz de substituir esse julgamento. Por isso, imaginar que o impedimento semiautomático reduzirá drasticamente as polêmicas seria criar uma expectativa impossível de ser atendida. A ferramenta corrige uma parte do problema, mas não interfere justamente nas decisões que mais dividem opiniões. Outro ponto que merece reflexão é o tempo necessário para sua implantação. Embora o assunto fosse discutido desde o início da temporada, a tecnologia só ficou pronta para entrar em operação no segundo turno do campeonato. A explicação da CBF é plausível: era necessário instalar equipamentos em todos os estádios, calibrar as câmeras e realizar uma série de testes antes da homologação definitiva do sistema.
Brasil no atraso
Por mais que gere críticas, isso faz sentido. Uma tecnologia dessa complexidade exige padronização e confiabilidade antes de ser utilizada oficialmente. Ainda assim, o atraso evidencia uma característica recorrente do futebol brasileiro. As grandes inovações quase sempre chegam anos depois de já estarem consolidadas nas principais competições internacionais. Copa do Mundo, Liga dos Campeões e diversas ligas europeias já utilizavam o impedimento semiautomático com naturalidade enquanto o Brasileirão ainda dependia do traçado manual de linhas.

Isso não diminui o mérito da implementação. Pelo contrário. Era um atraso que precisava ser corrigido. O desafio agora passa a ser outro. Se a tecnologia resolveu praticamente todas as dúvidas sobre impedimentos, resta saber quando a arbitragem brasileira conseguirá apresentar a mesma evolução nos critérios adotados dentro de campo. Porque o torcedor não perde a confiança apenas quando uma linha é desenhada de forma equivocada. Ele perde a confiança quando faltas idênticas recebem decisões diferentes, quando um toque de mão é pênalti em um estádio e deixa de ser no outro ou quando a interpretação muda de rodada para rodada.
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O impedimento semiautomático representa um avanço importante e coloca o Campeonato Brasileiro em sintonia com o que há de mais moderno no futebol mundial. Merece elogios pela precisão, pela rapidez e pela transparência que acrescenta ao processo decisório. Mas a maior transformação que a arbitragem brasileira ainda precisa promover não depende de câmeras, sensores ou inteligência artificial. Depende de algo que nenhuma tecnologia consegue automatizar: a capacidade de seus árbitros aplicarem critérios consistentes, uniformes e previsíveis durante os 90 minutos de uma partida.





