O problema do Flamengo deixou de ser apenas de resultados. O que preocupa na Gávea é a sensação de que o treinador Leonardo Jardim perdeu a mão com o elenco e vive o seu pior episódio “Ted Lasso”, aquele personagem americano da série que não entende nada de futebol e é contratado por um time da Inglaterra. Leo e o grupo rubro-negro passaram quarenta dias juntos e não aprenderam a falar o mesmo idoma. O time voltou da paralisação da Copa do Mundo sem intensidade, organização e, principalmente, convicção. Virou um amontoado com a camisa pesada do Fla.

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Em campo, os jogadores parecem hesitar. No banco, o treinador tenta encontrar soluções que ainda não apareceram nas primeiras partidas pós-Copa. A diretoria, nesse ponto, não tem condições de fazer nada. Boto e Bap não sabem treinar um time e nem devem se atrever a tal. O problema está, portanto, no vestiário, entre o treinador e os jogadores.

Leonardo Jardim perde a mão no Flamengo com os jogadores e time ‘parou’ de jogar após a Copa / Flamengo

A queda de rendimento é visível. Antes da Copa do Mundo, o Flamengo tinha uma identidade clara: pressão alta, posse agressiva, aproximação e domínio. Era temido. Depois da pausa, a equipe passou a jogar de forma burocrática, lenta e previsível. Ninguém respeita mais. O adversário já não sofre para marcar o time rubro-negro e, quando recupera a bola, encontra espaços que antes não existiam no meio de campo, principalmente.

Vestiário pode ‘explodir’

Nos bastidores, a leitura é de que as ideias do treinador ainda não foram completamente assimiladas pelo elenco. E que esses mais de um mês da Copa não serviram de nada. As constantes mudanças de escalação, as alterações de função durante os jogos e a tentativa de encontrar um time ideal (em agosto) acabaram aumentando a insegurança. Há atletas que já não sabem exatamente qual será seu papel de uma rodada para outra. E isso é visível em campo, a ponto de incomodar o torcedor, a diretoria e o próprio técnico.

O vestiário ainda não explodiu. Mas está quase. Não há notícia de enfrentamento entre treinador e jogadores. Mas existe um ambiente de desconforto entre as partes. O elenco sente que produz menos do que pode, enquanto a comissão técnica entende que parte dos atletas ainda não executa aquilo que foi trabalhado. Quando isso acontece, a confiança desaparece rapidamente. É uma disputa que sempre acaba derrubando o treinador. Leonardo Jardim tem a confiança do comando do clube, mas isso também pode mudar. Luís Filipe foi demitido sem aviso-prévio.

Flamengo Samuel Lino e Pedro na comemoração do gol de empate
Samuel Lino (à esq.), autor do gol de empate, é abraçado por Pedro; Fla sofre no Beira-Rio contra o Inter / Flamengo

Por isso, o presidente Bap e o diretor José Boto estão em uma encruzilhada. Leonardo Jardim foi contratado para dar estabilidade ao time depois de mais uma troca de comando. Demiti-lo agora significaria admitir que o planejamento fracassou mais uma vez. Bancá-lo exige suportar uma pressão crescente da torcida. Há ainda o risco de continuar vendo o Palmeiras abrir vantagem na liderança do Campeonato Brasileiro. E todos sabem que é muito difícil tirar o time de Abel na frente quando ele engata uma quinta marcha. O Brasileirão vai para a sua rodada 22 de 38.

Fla fica para trás no Brasileirão

E esse talvez seja o maior problema do Flamengo. Enquanto o clube tenta descobrir onde está o defeito do campo, o campeonato continua andando sem mais paradas. O Palmeiras vence, soma pontos e amplia a diferença. O Flamengo, por outro lado, gasta energia procurando respostas que deveria ter encontrado durante a intertemporada da Copa do Mundo. O time voltou pior. O torcedor gostaria de algumas explicações.

O elenco continua sendo um dos melhores do continente, apesar de algumas “velharias”. Qualidade individual, é verdade, não falta. O que desapareceu foi o funcionamento coletivo. Leo Jardim não tem mais um time. O Flamengo já não pressiona como antes, cria menos oportunidades de gol e passa a impressão de que joga no improviso, como qualquer outra equipe do futebol brasileiro. Não faz jus nem de longe ao apelido de Malvadão. Para um time montado para disputar todos os títulos do ano, isso pesa mais do que qualquer empate.

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Jardim encara o momento mais delicado desde que chegou ao Rio. Não porque esteja oficialmente ameaçado, mas porque o futebol do Fla deixou de convencer. E, no futebol brasileiro, quando o time perde a identidade, o treinador costuma ser o primeiro a pagar a conta. Mesmo os mais bem avaliados.

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