‘Time apático’; ‘Jogue para ganhar’ e ‘Respeita nossa história’. O muro do CT Rei Pelé foi pichado por torcedores depois da derrota por 3 a 0 para o Palmeiras, no Nubank Parque, no primeiro jogo das quartas de final da Copa do Brasil. A cena traduz, à sua maneira, o tamanho da revolta de quem viu o Santos ser dominado, envolvido e com grande probabilidade de ser eliminado. Todo protesto é legítimo quando nasce da insatisfação, indignação e até de um certo sentimento de vergonha diante da maneira como o time se comportou em campo.

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Dá para entender o desespero do torcedor. Dá para compreender a revolta e esse inconformismo diante dos rumos que as coisas estão tomando na Vila. Mas é preciso também olhar para o outro lado da equação: não dá para exigir muito mais de um grupo que, hoje, oferece pouco mais do que isso.

Santos Pichações no Muro do CT Rei Pelé
Muro do CT Rei Pelé é pichado por torcedores com cobrança ao elenco e respeito à história do clube / Reprodução de TV

Santos em apuros

O Santos tem um elenco limitado e, para completar, continua refém da figura de Neymar. Ausente do clássico com o Palmeiras — talvez por conta do gramado sintético, talvez por um controle de carga pensando no domingo contra o Corinthians pelo Brasileirão, jogo em que perder é proibido —, o astro cumpre hoje um papel dúbio dentro do clube. É herói ou vilão ao sabor dos resultados e do humor da torcida. Para os descontentes, inclusive alguns velhos ídolos, Neymar joga quando quer, no gramado que quer, contra o rival que melhor lhe aprouver.

Em resumo, faria o que bem entende sem cumprir o mesmo protocolo aplicado aos demais jogadores. Cuca, no entanto, ainda se esforça para afastar essa tese. Garante que é ele quem escala o time e que a decisão de deixar Neymar fora contra o Palmeiras foi sua, tomada a partir da análise de um contexto que envolvia essa e outras variáveis.

O problema é que a discussão sobre Neymar, embora importante, não pode servir para esconder uma questão maior. O Santos não tem um elenco capaz de suportar, em alto nível, a maratona que decidiu enfrentar. E o calendário não terá piedade de suas limitações. O ano esportivo está entrando em sua reta final e, ainda envolvido em três competições, o clube fará, quando muito, cerca de 24 jogos. A corda está no pescoço. Já não há espaço para experimentar, muito menos para negociar escolhas. O Santos precisa definir uma prioridade se quiser ter alguma chance de sobrevida na temporada.

Medo do rebaixamento

Está claro que o Santos não tem elenco nem estrutura para seguir em força máxima na Copa do Brasil, na Copa Sul-Americana e no Campeonato Brasileiro. Os dois primeiros torneios podem até oferecer um caminho curto para a conquista de um título — eventual e improvável, é verdade. Mas nada tira mais a torcida do controle do que a possibilidade concreta de o clube cair para a segunda divisão no Brasileiro. O Santos já passou várias rodadas frequentando a zona da degola e não tem mais para onde correr. A permanência na Série A precisa deixar de ser uma preocupação entre tantas e passar a ser, necessariamente, a preocupação número um.

Santos Neymar e Cuca
Neymar e Cuca conversam durante treino do Santos no CT Rei Pelé; camisa 10 retorna contra o Corinthians / Santos FC

O mais correto seria o Santos admitir essa fragilidade e jogar limpo com a torcida. Dizer, com todas as letras, que precisa escolher um caminho. Informar que decidiu concentrar suas forças nesta ou naquela competição e explicar por quê. É uma forma de assumir a própria realidade, concentrar energias e evitar a ilusão de que é possível disputar três frentes em condições de igualdade quando não existe estrutura para isso.

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O elenco é curto e o dinheiro também. As opções são poucas. E o estado atlético de Neymar já não é o mesmo de outros tempos. Não adianta a torcida tentar resolver tudo na base da pressão, muito menos fazer justiça com as próprias mãos. O Santos precisa, antes de qualquer coisa, fazer justiça à sua própria realidade. E talvez a decisão mais difícil seja reconhecer que querer tudo pode significar terminar a temporada sem nada — e, pior, com o risco de perder aquilo que não pode perder de jeito nenhum: o seu lugar na primeira divisão.

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