O futebol paulista vive uma situação que deveria causar preocupação muito maior do que causa. E acionar um alerta nas entidades esportivas. São Paulo, Corinthians e Santos, três dos maiores clubes do país, passaram a conviver com atrasos de salários e de direitos de imagem. O Palmeiras, outro clube do Estado, não está nessa. O problema deixou de ser um episódio isolado de uma gestão mal conduzida e começa a assumir características de rotina. O famoso “devo, não nego, pago quando puder”. Mas quando pagar quem trabalha deixa de ser prioridade absoluta, alguma coisa está profundamente errada na estrutura financeira do futebol.

Mais sobre o Corinthians

Para dar nomes aos bois, é preciso apontar os atuais presidentes desses três clubes: Harry Massi (São Paulo), Osmar Stabile (Corinthians) e Marcelo Teixeira (Santos). No São Paulo, por exemplo, a crise chegou a um ponto inédito neste mês. O clube atrasou pela primeira vez os salários registrados em carteira e acumulava três meses de direitos de imagem com parte do elenco, o que dá o direito, por lei, a processos e rompimento de contrato unilateral. O pagamento parcial aos jogadores começou a ser feito nesta semana, com prioridade para os atletas de menor remuneração.

Harry Massis Júnior, era vice-presidente do São Paulo antes de assumir o trono no lugar de Casares /Harry Massis Júnior

A situação expõe um problema de caixa que o clube tenta resolver há anos e com receitas futuras, os chamados adiantamentos, como aqueles concedidos pela Federação Paulista, no valor de R$ 35 milhões do Paulistão de 2027.

Dívida de quase R$ 3 bi

O caso corintiano é ainda mais preocupante porque o atraso com o elenco convive com uma dívida gigantesca e com restrições impostas pela Fifa. O clube já enfrentou transfer bans por obrigações financeiras não cumpridas e, ao longo do ano, precisou estabelecer prioridades entre pagar atletas, quitar dívidas antigas e recuperar a capacidade de contratar. Não fez nem uma coisa nem outra. É um círculo vicioso: não há dinheiro suficiente para cumprir os compromissos atuais, mas também é necessário encontrar recursos para resolver problemas que impedem o clube de funcionar. O clube anda em círculo e ninguém sabe para onde vai o dinheiro, cuja receita bruta de 2025 foi de R$ 863 milhões.

Santos nas mãos de Neymar

No Santos, a fotografia é semelhante e também cada vez mais normatizada. O clube tem dívida superior a R$ 1 bilhão e enfrentou meses de atraso nos direitos de imagem. Em julho, Alexandre Mattos admitiu a dificuldade e afirmou que era necessário produzir novas receitas. O dirigente chegou a dizer que não fazia sentido pensar primeiro em resolver um transfer ban e deixar pendências dentro do próprio clube. O fato é que nem bem aceitou que Neymar pagasse R$ 12 milhões da multa da Fifa para o Santos sair se reforçando com novos jogadores, como Arthur, Coutinho, Rodinei e Cebolinha, por exemplo. Isso sem falar da dívida do clube de R$ 100 milhões com o atacante.

Marcelo Teixeira tem sido bastante questionado após a dívida do Santos com a NR Sports e com Neymar / Santos

Há uma pergunta que os três clubes precisam responder: para onde está indo o dinheiro? São Paulo, Corinthians e Santos têm receitas de televisão, patrocínio, bilheteria, sócio-torcedor, premiações, publicidade e venda de jogadores. O problema não é necessariamente faturar pouco. É saber quanto dessa receita já nasce comprometida com dívidas antigas, despesas administrativas, juros, acordos, impostos, contratações anteriores e antecipações. Os clubes precisam informar o que andam pagando que faz o dinheiro “sumir”. É inegável que há muita desconfiança contra os seus dirigentes.

Modelo furado de antecipar receita

O modelo de antecipar receita precisa ser discutido. Se um clube utiliza hoje o dinheiro que receberia amanhã, ele resolve o problema imediato, mas reduz sua capacidade de investimento no futuro. Foi esse tipo de recurso que apareceu no planejamento do São Paulo com a possibilidade de antecipação de R$ 140 milhões de um contrato comercial. E existe uma segunda contradição: contratar jogador enquanto há atleta sem receber é uma decisão que precisa ser explicada. Não importa se o reforço chega de graça, por empréstimo ou com salário considerado baixo. Existe custo de luvas, comissão, salários, direitos econômicos e estrutura. Se a folha atual não cabe no orçamento, aumentá-la sem resolver a origem do problema empurra a dívida para frente. É má gestão.

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A solução de curto prazo é menos glamourosa do que uma contratação de impacto. É colocar o caixa em ordem: pagar salários e direitos de imagem, renegociar dívidas com calendário realista, cortar despesas que não sejam essenciais, interromper antecipações irresponsáveis e estabelecer uma regra simples para o futebol, como primeiro pagar quem já está no clube e depois pensar em quem pode chegar. Caso contrário, São Paulo, Corinthians e Santos correm o risco de transformar o atraso salarial em parte permanente do “modelo de administração”. E isso não é normal.

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