Que Abel Ferreira odeia perder — e que não sabe perder — todo mundo já sabia. A novidade foi ouvir o treinador do Palmeiras equiparar seu espírito altamente competitivo a ninguém menos que Ayrton Senna, o maior piloto da história do automobilismo brasileiro e um dos cinco melhores do mundo, ídolo nacional por sua coragem, tenacidade e excelência dentro do cockpit de um carro de corrida. Foi com ele que Abel se comparou ao tentar justificar as tantas vezes em que perdeu as estribeiras à beira do campo quando seu time está em uma disputa que vale três pontos ou um título.

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Ali, sob a pressão de buscar o resultado, ele próprio admite que se transforma. Sai da zona de conforto, parte para a irracionalidade, fica cego e, no mais das vezes, acaba se excedendo naquilo que deveria ser uma postura estritamente profissional e educada.

O que disse Abel

“Um dos meus ídolos é o Ayrton Senna. Aquilo que tem a ver fora da competição, foi dos melhores corações que já vi. Mas competindo, bateu em pilotos e ganhou um campeonato metendo o cotovelo na cara do Prost. Competindo eu não sou exemplo. Não estou na igreja, estou competindo.” A frase, ao mesmo tempo franca e reveladora, escancara um raciocínio no mínimo questionável: competir seria um território à parte, onde certos limites poderiam ser relativizados.

Mais adiante em suas declarações, Abel buscou outra comparação, desta vez com o Pateta — aquele bom camarada no cotidiano que, ao volante, se transforma completamente. A comparação revela um traço humano que muita gente reconhece em si mesma: a competição como catalisadora de impulsos que normalmente ficam contidos. A imagem tem um quê de humor e até de autocrítica, mas ajuda a explicar como o próprio treinador português enxerga essa metamorfose competitiva que toma conta dele durante os jogos do Palmeiras.

Abel defende o ‘vale tudo’

Admirável que Abel tenha se inspirado em um ídolo brasileiro reconhecido mundialmente como sinônimo de eficiência e grandeza esportiva. O ponto delicado é o recorte dessa admiração. Reduzi-lo apenas ao competidor que “mete o cotovelo” numa disputa decisiva empobrece a história e, de certa forma, distorce o legado.

É uma pena que a comparação venha acompanhada de uma espécie de exaltação do vale-tudo pela vitória. Ao destacar que Senna, quando necessário, protagonizou manobras duras nas pistas, Abel tenta legitimar sua conduta irascível à beira do campo. Como se pressionar árbitros o tempo todo, reclamar de todas as marcações contra sua equipe e até provocar adversários fossem atitudes justificáveis apenas pelo desejo de vencer — ou, no limite, por uma aversão visceral à derrota.

Dick Vigarista

Quando Abel cita episódios de disputas duras nas pistas para explicar sua postura explosiva à beira do gramado, o que aparece nas entrelinhas é uma espécie de licença moral para o vale-tudo competitivo. É nesse ponto que sua fala flerta com uma figura clássica da cultura popular: a síndrome de Dick Vigarista. O personagem de A Corrida Maluca que faz qualquer coisa para ganhar, incluindo sabotagens contra os rivais.

Evidentemente, Abel não quis chamar Senna de vigarista — nem faria sentido. Mas o raciocínio embutido em sua explicação, ainda que involuntariamente, toca nesse imaginário do competidor que considera aceitável empurrar as fronteiras da ética desportiva em nome da vitória.

É legítima a admiração de Abel por Senna como alguém que passou a vida focado em ser o melhor, o maior de todos, o campeão. Para um treinador que já foi acusado de ser um europeu preso ao passado colonialista de Portugal, a reverência a um ídolo genuinamente nacional até aproxima sua figura da cultura esportiva que o acolheu. Nesse aspecto, há algo de positivo.

O cuidado precisa estar nos limites desse desejo desenfreado de vencer custe o que custar. O esporte — assim como a vida — tem regras de conduta, ética e civilidade. A competição é feroz, mas não pode ser confundida com licença para tudo.

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Não há dúvida de que Abel já é o maior técnico da história gloriosa do Palmeiras e dificilmente será superado por outro profissional nos próximos cem anos. Seu legado no clube e no futebol brasileiro está consolidado. Justamente por isso, talvez valha a reflexão: para ser um campeão realmente do tamanho simbólico de Ayrton Senna, não basta odiar perder. Em algum momento, é preciso também aprender a perder — sem transformar o jogo em uma corrida em que valham atalhos e ultrapassagens proibidas.

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