Não foi a primeira, nem terá sido a última vez. Mas, ao perder para o Grêmio, mesmo escalando um time todo reserva, Abel Ferreira recorreu novamente ao expediente que já virou marca registrada de suas noites ruins: atacar a arbitragem brasileira para justificar as derrotas do Palmeiras. O treinador, que gosta de repetir que “quando ganhamos, ganhamos todos; quando perdemos, perdemos todos”, raramente se inclui entre os culpados pelos insucessos.
Nas derrotas, quase nunca há autocrítica. O dedo aponta para fora, nunca para dentro. E o alvo preferencial, invariavelmente, é o apito — ou, em escala ampliada, “o sistema”, essa entidade abstrata que ele jura existir e estar sempre pronta para prejudicar o seu Palmeiras.

A mais recente crítica, lançada de forma cifrada, tenta sugerir que o Campeonato Brasileiro está sendo decidido menos pelo futebol jogado e mais por interferências externas – se não para favorecer o Flamengo, ao menos para sabotar o Palmeiras. Mais ou menos o mesmo raciocínio enviesado e condenável apresentado no passado por John Textor para explicar porque o Botafogo perdeu um título para o Verdão.
Acusação grave de Abel
É uma acusação grave, mas que, como tantas outras já feitas por Abel e sua comissão, não vem acompanhada de provas, fatos ou qualquer sustentação concreta. É a retórica recorrente dos derrotados — a mesma que ele mesmo costuma desprezar quando parte de outros.
Desta vez, porém, Abel fez mais do que repetir o discurso já conhecido. Ao insinuar que a arbitragem brasileira age de maneira suspeita e ao contrapor a CBF à Conmebol como se a entidade nacional fosse moralmente inferior, o treinador atingiu um ponto sensível que extrapola o campo técnico.

Ele botou as mãos num vespeiro ao cutucar diretamente a instituição presidida por Samir Xaud — uma figura com a qual Leila Pereira mantém alianças estratégicas e interlocução política importantes. Criticar a arbitragem da CBF, nessas circunstâncias, reverbera muito além do gramado: respinga na própria imagem da presidente do Palmeiras.
Abel entre o Palmeiras e a CBF
E é aí que Abel pode ter cometido seu erro estratégico mais evidente. Porque não se trata apenas de questionar decisões do apito — algo legítimo quando fundamentado. Trata-se de insinuar malfeitos no ambiente que a própria presidente do clube ajudou a sustentar, inclusive ao se alinhar a Xaud e isolar Reinaldo Carneiro Bastos na eleição recente da CBF. Quando Abel lança uma suspeita difusa sobre o sistema, a sombra se projeta sobre todos, inclusive sobre quem está sentado ao seu lado na trincheira política do futebol brasileiro.
Tudo isso, vale dizer, enquanto o Palmeiras vive seu pior momento técnico na temporada recente. A equipe não joga bem, acumula atuações opacas e resultados ruins no Brasileirão — cinco partidas sem convencer, algumas sem competir.

E, como em outras ocasiões, o discurso de Abel aparece como cortina de fumaça para desviar o foco do que realmente importa: o mau futebol. No enredo criado pelo treinador, desde que o árbitro Ramon Abatti Abel não marcou o pênalti de Allan no clássico contra o São Paulo, “coisas estranhas” passaram a acontecer contra o Palmeiras. Mas, novamente, não há fatos apresentados. Apenas insinuações.
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A reação imediata de Samir Xaud ao discurso do treinador dá dimensões exatas do tamanho da fala imprópria. O presidente interino da CBF saiu em defesa da lisura do campeonato, cobrou responsabilidade e lembrou que a mesma energia crítica deveria ser empregada quando o Palmeiras é beneficiado por decisões do apito — algo que Abel, convenientemente, prefere não enxergar.
Treinador não assume o seu papel
No fim das contas, o que se vê é um treinador que, diante da queda de rendimento do time, opta por tensionar o debate público em vez de assumir seu papel no processo. O discurso, porém, começa a desgastar mais do que proteger. E, desta vez, cria um desconforto desnecessário também para o clube e para sua presidente.





