A vitória sobre a LDU poderia conduzir a entrevista de Abel Ferreira para o futebol. A vantagem mínima construída pelo Palmeiras, as chances desperdiçadas, a atuação de Vitor Roque e até a incomum decisão do treinador de fazer apenas uma substituição ofereciam assunto suficiente. Mas foi quando deixou o campo e entrou na relação com o torcedor que a coletiva ganhou seu momento mais revelador.

Mais sobre Abel Ferreira

Abel decidiu voltar à declaração que provocou repercussão nos dias anteriores, quando pediu ao palmeirense que soubesse “desfrutar” o momento vivido pelo clube. Desta vez, em vez de insistir na construção original, admitiu que não gostou do que ouviu de si mesmo. “Quando fui ver aquilo que falei, também não gostei daquilo que vi”, reconheceu.

Abel Ferreira, treinador do Palmeiras
Abel Ferreira aplaude uma jogada executada pela equipe contra LDU; treinador sai satisfeito com o desempenho / Palmeiras

Abel Ferreira morde e assopra

Mais do que uma retratação formal, a resposta virou uma tentativa de explicar quem é Abel Ferreira. O português admitiu que, em determinados momentos, fala movido pela emoção e nem sempre consegue transmitir exatamente aquilo que pretende. “Tenho muitas vezes o coração ao pé da boca”, disse. E foi além: “Se calhar não fui muito claro, não soube me expressar.”

Nesse ponto a fala ganha dimensão maior do que uma simples correção de rota. Abel não tentou se transformar em outro personagem para reparar a relação com a arquibancada. Ao contrário: reivindicou que sua trajetória no Palmeiras seja analisada pelo conjunto da obra, e não por uma declaração isolada. Para explicar, apelou até para a vida pessoal. Disse estar casado há 20 anos e que, como acontece em qualquer relação longa, às vezes fala aquilo que não deveria, no momento em que não deveria. O importante, segundo ele, é que quem convive ao seu lado saiba avaliar muito mais do que uma frase. “Mais do que as palavras são as atitudes que nós temos.”

Foi a partir daí que Abel passou da autocrítica à defesa de seu vínculo com o Palmeiras. “Eu amo estar no Palmeiras, eu amo o Palmeiras, eu amo trabalhar com os jogadores do Palmeiras”, afirmou. Não é uma novidade ouvi-lo declarar carinho pelo clube. A diferença foi o contexto. Abel vinha de uma semana em que sua relação com parte da torcida voltou ao centro do debate e utilizou a coletiva para reposicionar sua mensagem: não queria ensinar ao palmeirense o significado do Palmeiras nem reduzir a cobrança por resultados.

Depois, surgiu a melhor metáfora da noite. “Quando eu cheguei ao Palmeiras, tinha um relógio preparado. E eu trouxe a pilha.” A comparação resume bastante o modo como Abel enxerga seus seis anos de clube. O treinador não reivindica para si a criação de tudo aquilo que encontrou. Reconhece uma estrutura pronta, um clube organizado e um ambiente capaz de sustentar o trabalho. Mas também não abre mão de afirmar que teve participação determinante na transformação desse potencial em resultados. “Tu dizes-me: é mais importante o relógio ou a pilha? Os dois.”

Tradicional soberba

É uma maneira muito particular de discutir o legado. O Palmeiras existia antes de Abel Ferreira, continuará existindo depois dele e, na própria visão do treinador, seguirá ganhando quando sua passagem terminar. Mas o português deixa cada vez mais evidente que considera ter conquistado um espaço definitivo na história do clube. “O Palmeiras venceu, está a vencer e continuará a vencer no dia em que eu deixar o clube.”

A frase poderia soar como prenúncio de despedida. Dentro da resposta, porém, teve outro significado. Abel falava em perspectiva histórica, consciente de que sua permanência terminará em algum momento, mas também de que aquilo que construiu já não pode ser retirado de sua passagem. “É um orgulho muito grande poder fazer parte da história, ou do livro da história que tem o Palmeiras, e poder fazer parte de um capítulo ou de uma página de um clube que é centenário.”

Alexander Barboza chega forte na marcação de Michael Estrada
Sem dar espaços ao adversário, Alexander Barboza chega forte na marcação de Michael Estrada, da LDU / Palmeiras

E o jogo?

Se a relação com a torcida produziu a resposta mais marcante da coletiva, o futebol também deixou Abel satisfeito. O treinador aprovou o desempenho do Palmeiras diante da LDU, embora tenha lamentado a incapacidade de transformar o volume produzido em uma vantagem maior. Na leitura do português, a equipe encontrou diferentes maneiras de chegar ao gol e apresentou um repertório ofensivo variado. “Hoje eu gostei muito. É verdade que podíamos ter feito mais gols, mas hoje eu gostei.”

Abel citou cruzamentos pelo chão, bolas aéreas, combinações por dentro e jogadas de bola parada para sustentar sua avaliação. Na conta do treinador, o Palmeiras construiu oportunidades suficientes para deixar o confronto em situação mais confortável. “Podíamos ter feito pelo menos mais um ou dois gols em função do volume que nós criamos”, lamentou.

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O 1 a 0, portanto, ficou entre duas sensações. De um lado, a aprovação por aquilo que o Palmeiras produziu e pela capacidade de controlar boa parte da partida. De outro, a impressão de que a vantagem poderia — e talvez devesse — ter sido maior. Abel saiu satisfeito com o futebol. Depois de ruídos fora dele, o treinador aproveitou a coletiva também para tentar acertar as palavras.

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