Adenor se fez adulto em Caxias do Sul. Trocou aquela umidade friorenta por outras terras, em perseguição de frestas por onde pudesse vislumbrar um mundo menos banal. Quem ofereceu esse vão foi o futebol. Gringo graúdo, estabeleceu-se um meio-campista razoável, compensando as limitações técnicas com a disciplina de que o povo da Serra Gaúcha tanto se gaba – por vezes flertando com a xenofobia.
Só aos 28 anos, quando os joelhos fraquejaram, Adenor foi para a casamata e, enfim, achou meios de dar vazão àquela volúpia quase carnal de uma existência menos medíocre. As palavras lhe vinham abundantes e obedientes: conquistou primeiro os jogadores, depois a imprensa.

Depois de triunfar no campeonato da província com o clube da terra natal, foi dar num gigante da capital. Mirava os repórteres no fundo dos olhos, impondo uma presença tátil no agora. Parecia um iogue. Os entrevistadores menos experientes engasgavam, custando a reorganizar mentalmente as perguntas depois daquele olhar difícil de sustentar. Quem foi perfurado pela íris de Adenor não se surpreendeu com o que ele faria nos anos seguintes. Havia ali fome, excitação diante de um horizonte sensual. Adenor já não se pertencia.
UM OLHAR DIFÍCIL DE SUSTENTAR
O futebol costuma ser assimétrico na recíproca desses enamoramentos. Dá glórias, fortuna, coisas facilmente confundidas com amor, mas também se deixa dominar por outras almas afoitas, mais propensas a safadezas. Adenor obteve conquistas planetárias em Yokohama, foi adorado por multidões fanáticas, mas, após liderar “os melhores”, como previra seu pai, algo começou a mudar dentro dele. Uma angústia se instalou.
UM TEMPO TAMBÉM DIFÍCIL DE SUSTENTAR
Depois do alarido dos estádios, encontrava em casa um grande silêncio, um silêncio incômodo. Às vezes punha-se a tossir, para se convencer de que não tinha ficado surdo. De repente surgiam vozes estranhas. Que eram? Ainda hoje não sabe. Vozes que iam crescendo, monótonas, e davam medo. Uma ladainha, um queixume, clamor enorme, sempre no mesmo tom. O brado lastimoso saía das paredes, dos móveis. Fechava os ouvidos para não perceber aquilo: as vozes continuavam, cada vez mais fortes. Resolveu dar um tempo.
Adenor até voltou. Mas há retornos que não são exatamente voltas.
O futebol parece não ter mudado. As pressas, as pressões, tudo segue intacto. A transfiguração foi maior em Adenor, que hoje encara essas coisas de uma forma mais opaca, menos disponível. Já não está inteiro em nada. Certos lugares que lhe davam prazer tornaram-se odiosos.
UM HOMEM EXAUSTO E CANSADO
Também passou a se incomodar com aquele pessoal que antes olhava tão detidamente dentro dos olhos. Não existe opinião pública. O leitor de jornais admite uma chusma de opiniões desencontradas, assevera isto, assevera aquilo, atrapalha-se e não sabe para que banda vai.
Adenor está cansado. Tenta voltar a ser criança. Não quer, certo dia, ter ganas de pegar quem lhe subtraiu esse amor afrodisíaco e afogá-lo devagar, trazendo-o à superfície quando perdesse o fôlego, e prolongar o suplício indistintamente. Mesmo acometido de angústia, não vai matar ninguém. Para que um homem discutir, se não é obrigado a isso?Adenor se faz velho em Caxias.




